Publicações

Livro-reportagem “Charlotte” (2003) 

A história de Charlotte poderia ser a de qualquer um. Nascida num mundo e, principalmente, numa sociedade que não está preparada para aceita-la do jeito que é, a menina reflete o que cada humano é realmente: um ser único em busca de igualdade.

Por meio do jornalismo literário, esta obra conta a bela e sofrida história da mulher Bernadete Rocha e como sua vida se transformou com a chegada de uma filha portadora da síndrome de Down.

Para criar uma visão menos preconceituosa com relação às pessoas diferentes da maioria, este livro-reportagem pretende ser um auxílio no meio de transformação social, estimulando a busca de uma qualidade de vida para alguns ou apenas mexendo com a sensibilidade de outros diante de uma verdadeira lição de luta e amor.

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Versões e-book e audiolivro (2018) com capítulo novo/atualizado:

links

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Livro infantil “Passarinha” (2015)

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“Passarinha” é um livro para crianças e também para adultos, uma vez que a linguagem poética permite a leitura de camadas, níveis de compreensão e absorção diferentes. 

O livro tem 22 páginas, as ilustrações foram feitas pela Silvia Teske e a capa tem uma ilustração feita somente de contornos, para que cada leitor coloque as cores que desejar. Nós colocamos nosso e-mail no final do livro, e os leitores têm nos enviado fotografias das capas coloridas. No Facebook temos um perfil chamado Livro Passarinha, e as capas todas estão lá num álbum.

 

Versão audiolivro

 

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Crônicas publicadas na página BELTRANAS do jornal Município Dia-a-Dia (Brusque/SC)

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02/05/2018 – Paulo Venturelli: criador de histórias

Durante os 9 anos em que participei da organização da Feira do Livro de Brusque tive a felicidade de conhecer muita gente interessante e envolvida no meio literário, além de ter trazido à cidade alguns de seus filhos que estão afastados há décadas e, hoje, tem reconhecimento no seu fazer artístico.

Foi o caso do autor Paulo Venturelli que veio participar do evento em 2013 e nos brindou com uma conversa doce e esclarecedora sobre seu cotidiano como escritor. Dentre tantas obras publicadas certamente há destaque para seu “Visita à Baleia”, inspirado num episódio ocorrido em Brusque nos anos 60 e ganhador de diversos prêmios nacionais, entre eles o segundo lugar do Prêmio Jabuti, na categoria infanto-juvenil.

 

Obra

A aventura contada como se vivida pelo autor quando criança se costura pelo encontro com a memória de menino. Detalhes ricos, construídos pela imaginação, trazem o leitor para muito perto do inusitado fato narrado.

Na pequena cidade de Brusque, um menino com seu irmão pequeno, a convite do pai, ganha o mundo, em cima de uma bicicleta, com o objetivo de conhecer uma baleia que apareceu no terreno do salão paroquial. A curiosidade do menino se aguça para descobrir o tamanho da baleia, como a trouxeram até a cidade (que é bastante longe do mar!), ou, ainda, de que maneira estariam cuidando do imenso animal. Todo o povo da cidade, como o menino, se sentiu inquieto, e correu ao centro da cidade para conferir o mistério.

Paulo Venturelli, ao enriquecer seu texto com detalhes curiosos, transmitidos pelo pensamento vivo do menino protagonista, convida o leitor a acompanhar a visita à baleia junto com ele. O texto é repleto de histórias dentro da história, promovendo ao leitor uma aproximação íntima a esse mundo inventivo do menino.

Muito antes de fazer uma homenagem à sua cidade natal, citando lugares, ruas e nomes, o autor faz uma homenagem ao menino que foi (e ainda é!), menino vivido e menino imaginado.

As ilustrações de Nelson Cruz também se destacam na obra, ao criarem uma conexão ímpar entre palavras e imagens, que se entrecruzam e ampliam-se aos olhos do leitor.

 

Vida

Paulo Venturelli nasceu em Brusque, no ano de 1950. Filho de tecelões, começou o primário no Colégio Santo Antônio, das irmãs da Divina Providência, e depois entrou para o internato Sagrado Coração de Jesus, em Corupá. Nesse meio tempo, a família mudou-se para Jaraguá do Sul, onde Paulo completou o científico.

No ginásio, ouviu de seu professor de português: “quem quiser ser inteligente na vida, precisa ler pelo menos um livro por semana”. Foi o grande insight em meio às tempestades da adolescência. Lendo com cuidado, descobriu a literatura e despertou para a paixão que o acompanha até hoje. Lendo muito, passou a ter ideias. As tradicionais e chatas redações da escola passaram a ter para ele outro significado. Os textos acabavam saindo bem e o professor os lia como exemplo para os colegas.

Em 1974 mudou-se para Curitiba e iniciou a graduação em Letras na Universidade Federal do Paraná – UFPR. Desde então vive na capital paranaense e leciona Literatura Brasileira na UFPR, além de participar de eventos literários por todo o Brasil.

Desde que deixou Brusque na infância, Paulo não havia mais retornado à cidade, o que veio a ocorrer em 2013 por causa do convite para participação na Feira do Livro.

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25/04/2018 – Não é só reclamação

Em todas as cidades, os governos municipais contam com a colaboração de pessoas da sociedade civil, de diversas áreas, compondo os Conselhos Municipais. É a forma de o poder público dividir as discussões, ouvir profissionais e suas demandas e, assim, trabalhar de forma mais democrática.

Criado em 2008, o Conselho de Cultura de Brusque vem atuando em parceria com a Fundação Cultural e conseguiu realizar diversos avanços para o setor, como a criação de eventos, a formatação do Plano Municipal de Cultura – proposto pelo Ministério da Cultura e, principalmente, fez acontecer a principal ferramenta de produção cultural: um edital anual. Ele oportuniza a inscrição de qualquer cidadão, aceita as mais variadas linguagens artísticas e promove montagens de espetáculos, lançamentos de livros e CDs, realização de oficinas, entre tantos formatos de projetos culturais.

É o mecanismo mais justo e democrático pois a escolha dos projetos dá-se por pontuação de acordo com critérios pré-estabelecidos e a avaliação é feita por profissionais gabaritados, não ligados ao governo. O edital de 2018 está pronto para ser lançado, no entanto, é necessário formar uma nova gestão do Conselho de Cultura, para que isso ocorra.

Nesta quarta, dia 25, às 18h, haverá Assembleia de eleição para os novos conselheiros que assumirão a gestão até 2020. Pessoas interessadas em participar, devem se inscrever na Fundação Cultural (entregar a ficha de inscrição preenchida até às 17:30h ou participar da Assembleia e preencher no momento).

Os conselheiros se reúnem uma vez ao mês e debatem os rumos das políticas públicas para a cultura em Brusque. No total, são 16 conselheiros titulares, sendo que 8 são nomes indicados pelo governo. Assim, a outra metade é composta por representantes da sociedade civil das áreas de Música, Artes Cênicas, Literatura, Artes Visuais, Museus e Arquivos Históricos, Artes Populares e por duas entidades não-governamentais com eletiva atuação na área cultural.

 

Chororô

Artistas, produtores e público em geral devem ter interesse num Conselho atuante, defendendo valores e projetos. É a forma mais direta de fazer-se ouvir e, ainda, com o suporte legal que a formação dos Conselhos prevê.

No geral, artistas gostam de reclamar. Sabem apontar falhas. Têm ideias ótimas. E fazem isso só na mesa do bar.

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18/04/2018 – Passa tempo tic tac

Gosto de saudosismos, e ciclos, e reativar memórias. Este ano, ao me dar conta que completaria 15 anos de um dos momentos mais inspiradores que já tive, resolvi vasculhar materiais e trazer de volta, de forma diferente, o conteúdo do livro-reportagem “Charlotte”.

A história da mãe Bernadete Rocha e sua filha portadora da síndrome de Down que revolucionaram a forma de encarar esta e outras limitações, genéticas ou adquiridas, trazendo para Brusque um método de reorganização neurológica, foi meu tema. Fiz as entrevistas e redigi os capítulos no primeiro semestre de 2002, para que fosse apresentado como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Univali. Foram meses de muitas novidades e de absoluta imersão nessa incrível jornada em busca de resultados, inclusão, informação.

Nos meses seguintes, como havia sido sugerido pela banca avaliadora da Universidade, fui em busca de viabilizar a publicação. Até que recebi a resposta positiva, da Irmãos Zen S/A, através do Tato, um dos diretores. O lançamento ocorreu em 24 de abril de 2003, no Shopping Gracher, com lançamento também na Univali, em Itajaí, na noite seguinte.

De lá pra cá muitas histórias me chegaram por causa do livro. Mães à espera de bebês com a mesma síndrome, professores que atuam com crianças especiais, pais que queriam saber sobre o trabalho na Escola Charlotte, gente curiosa e gente que gosta de uma boa história. O livro chegou a lugares distantes, parou nas mãos de um cineasta que convidou a menina brusquense para integrar um filme, foi distribuído em bibliotecas e livrarias do Estado.

Mais que isso, o livro foi instrumento de informação nas palestras que Bernadete tem feito ou em atividades da Escola. Em conversa com a diretoria, falamos da necessidade de fazer uma nova edição, pois os exemplares estão acabando. Mas, até viabilizar esta publicação, que depende exclusivamente de verba, resolvi marcar a data comemorativa com a reedição do conteúdo em formatos de e-book e áudio livro.

 

Passado a limpo

Eis então que me deparei com a crueldade da passagem do tempo, no que se refere aos suportes e tecnologias utilizadas em 2002 e que praticamente caíram em desuso. Guardei uma caixa, com todo o material produzido na ocasião para, a partir dele, realizar a reedição. Porém, há 15 anos, o armazenamento de textos e fotos escaneadas era feito em disquetes. No caso do livro, mais de 20, pois sua capacidade era bem limitada. Tudo o que hoje caberia num pendrive. Encontrar um computador com leitor de disquete, na esperança de obter o texto digitado, foi extremamente difícil. Depois de diversas tentativas até que os disquetes não abriram numa lan house, segui por outro caminho, utilizando a tecnologia dos aplicativos de celular. Como tinha a versão impressa do texto, baixei um scanner e, pelo celular, digitalizei cada página, salvando em formato pdf. Depois, um conversor online transpôs o texto em pdf para o formato Word.

Após retocar algumas letras “mal lidas” pelo conversor, veio o trabalho de reescrever palavras que sofreram alteração após o novo acordo ortográfico – outra mudança ocorrida neste intervalo de tempo.

Assim, os disquetes, como o caderno escrito à mão com as pesquisas feitas na biblioteca e as fitas cassete com as entrevistas, viraram peças de museu e serão guardadas com esmero como tais.

 

Dando voz

Outra curiosidade veio no processo de gravar em áudio o conteúdo do livro. Como em muitas passagens o texto está em primeira pessoa, pois me incluí na história em certo momento, e também pelo fato de eu contar histórias, a locução foi feita por mim. Os textos informativos de capa, índice, ficha técnica e também o prefácio ganharam a voz da amiga Patricia Souza.

Ao ler diretamente do livro impresso, percebi que certas sinalizações gráficas não existem na narrativa oral, como as aspas ou travessão. Então, a adaptação ocorreu utilizando-se novas expressões, como “Ela disse”, antes de uma fala, ou “ela contou” após outras que formavam um diálogo. Fora esses detalhes, o texto foi gravado na íntegra e num tom de conversa ao pé do ouvido.

 

Atualização feita com sucesso

Uma entrevista recente com Bernadete e Charlotte resultou em um capítulo extra, trazendo o leitor para os dias atuais, pontuando novos temas, descrevendo os rumos das vidas dos personagens. Nele, além de impressões que tive ao voltar à Escola, sentar no chão para conversar com as duas, assistir o trabalho feito com as crianças, trago informações sobre autismo e sexualidade dos portadores da síndrome de Down.

 

No ar

No dia 24 de abril, terça da semana que vem, ao fechar o ciclo de 15 anos, acontecerá o lançamento das versões e-book e áudio livro. Na onda das novas tecnologias, aproveitando recursos de comunicação surgidos recentemente, farei o lançamento de forma virtual. Às 20:30 horas haverá uma transmissão ao vivo pelo Facebook, tanto pelo meu perfil quanto pela página Escola Charlotte (e por quem mais quiser compartilhar!). Assim, todos estão convidados!

Além de contar algumas curiosidades, mostrar fotos do dia do lançamento de 2003, estarei recebendo abraços virtuais de amigos e familiares, respondendo perguntas e, claro, divulgando os links para acesso aos dois novos formatos do livro.

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11/04/2018 – Da Gente, pra gente

Quem é da velha guarda ou se interessa pela cultura local certamente já ouviu falar do radialista Goianinho, que além de locutor, foi compositor de boa música sertaneja. Quem não conhece, terá uma boa oportunidade para, através de uma bela homenagem em forma de canções, saber o que esta figura folclórica representa para Brusque.

Seu filho, o também músico Mimi Reis com sua parceira de palco e vida Bia Barros, armaram uma noite de emoção e clássicos da música sertaneja, criando um clima de total nostalgia, mas também com muita diversão.

“Música da Gente” é o nome do evento, que também era o nome do programa de rádio apresentado por Goianinho durante 30 anos na Rádio Cidade. Nesta sexta-feira, dia 13, as portas do Clube Caça e Tiro Araújo Brusque se abrirão às 20 horas para, logo depois, às 21h, iniciar o primeiro show da noite com a dupla Raiz e Sertão, com repertório de “sertanejo raiz”. Em seguida, Bia Barros, Mimi Reis e banda trazem o “sertanejo romântico” (e quem conhece as peças, sabe que vem junto muitas caras, bocas e coreografias!).

Grandes artistas como Mato Grosso e Matias, Chitãozinho e Xororó, Milionário e Zé Rico, César e Paulinho, entre outros, serão prestigiados nesta noite. Haverá um Buffet de petiscos oferecido pelo Restaurante do Clube Caça e Tiro, já incluso no valor do ingresso, que está sendo vendido pelo telefone (47) 9 9949-6451. Mais informações e contato, pelo evento no Facebook: Noite Música da Gente – Raízes Sertanejas.

 

O Poeta Caipira

Caipira por natureza, Valdir Reis nasceu em Pinheiral, interior de SC, em 1940. Com 15 anos já cantava e tocava violão, logo em seguida vieram as primeiras composições, escreveu algumas letras de música sozinho e outras com seu parceiro de dupla naquela época, Anésio.

Com a dificuldade de viver da música, trabalhava em uma fábrica de tubos, onde por decorrência de um acidente de trabalho perdeu três dedos da mão esquerda, impossibilitando-o de tocar violão.

Mas sua paixão pela música e pelo verso era muito forte e ele continuou escrevendo e cantando. Compôs dezenas de letras.

Em 1964 Goianinho e Anésio participaram de um Festival de Música na cidade de São João Batista, em que a premiação era a oportunidade para apresentar durante um mês um programa ao vivo na rádio, com duração de uma hora. Ali Goianinho começou a chamar atenção por seu jeito peculiar de fazer rimas de improviso.

Foi convidado a trabalhar na Rádio Araguaia, de Brusque, onde permaneceu por 12 anos. Após isso, aceitou o convite para apresentar o programa “Música da Gente” na Rádio Cidade, às 4 horas da manhã e às 16 horas, trazendo o repertório sertanejo antigo e alegrando as manhãs e fins de tarde de muitos brusquenses com seus versinhos.

Permaneceu na Rádio Cidade por 30 anos, até seu falecimento, em 2011, totalizando 42 anos de rádio, versos e alegrias para os ouvintes.

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04/04/2018 – Música para nossos ouvidos

Desde sua criação em 2006, a Escola de Música de Câmara do CESCB propõe um processo de formação musical básica (inicial e intermediária) de cantores e instrumentistas por meio do ensino e da prática coletiva do canto e de diversos instrumentos musicais. A Escola mantém a Orquestra de Câmara, dirigida pelo maestro Sérgio Westrupp, com participação de todos os alunos e os diversos Grupos de Câmara com formações variadas, tendo como local de ensaios, aulas e apresentações o Teatro do Centro Empresarial Cultural e Social de Brusque, localizado na Rua Pedro Werner.

Apresentando repertório variado e mantendo uma agenda constante, a Orquestra realiza no próximo dia 22, às 19h, o Concerto de Abertura da Temporada 2018. No programa estão as obras “Chorales” de Johann Sebastian Bach, “Mikrokosmos” de Béla Bartok, “Sechs Kleine Stücke” de Rezsö Sugár e “4 danças húngaras antigas” de Zempléni László. Será também o concerto inaugural do par de tímpanos – instrumentos de percussão erudita. Os ingressos antecipados custam R$ 15,00 e estão à venda com os alunos da Escola de Música e da Orquestra do CESCB e na recepção do Teatro a partir deste sábado, dia 7. Na hora do espetáculo o valor do ingresso será R$ 30,00 ou R$ 15,00 para meia entrada. Crianças menores de 11 anos não pagam ingresso.

 

Formação

Neste sábado, dia 07, a Orquestra do CESCB apresenta parceria com o Quinteto Jaraguá, que recebeu o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, do governo do Estado de Santa Catarina e por meio dele realiza uma turnê de workshops para alunos músicos de instrumentos de sopro – metais e madeiras – de bandas musicais e orquestras em 10 cidades catarinenses. O Workshop gratuito é aberto para músicos de toda comunidade, e ocorre das 9 às 16h. À noite, o Quinteto Jaraguá apresenta concerto, às 19h. O ingresso é 1kg de alimento. Mais informações: www.jaraguaquinteto.vpeventos.com

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28/03/2018 – Ponto a favor

Conversar, expor, trocar. Dessa necessidade, nasceu no segundo semestre de 2017 o projeto ContraPonto: um grupo de discussão de assuntos diversos, que se reúne a cada duas semanas, sempre com mediação de uma pessoa que se dispõe a discorrer e aprofundar o tema em questão. A ideia começou timidamente, mas está cada vez mais se fortalecendo, com a participação de profissionais das mais variadas áreas e muitas cabeças ávidas ao debate.

O grupo acredita na busca pela evolução por meio da troca de opiniões e pensamentos, levando assim à análise crítica do que nos cerca. O espaço é aberto à participação de todos e os temas variam entre acontecimentos recentes ou assuntos específicos. Já foram tratados temas como a arte e o medo proporcionado pelo seu desconhecimento, a criatividade como dom ou apenas uma combinação de referências, o audiovisual como forma de pensamento, a economia proveniente do lixo, o porquê do mercado entender o nude apenas como bege, entre outros.

Os encontros ocorrem no bar do Casarão Garibaldi (bairro São Luiz) em terças alternadas, às 19h. A entrada é franca.

 

ContraPonto

Nos encontros as pessoas são incentivadas a expor suas opiniões e gerar uma discussão saudável, porém a presença de apenas ouvintes também é bem-vinda.

O próximo tema a ser debatido, no dia 03, é “6 meses após o Queer Museu – como combater o moralismo no espaço público?” e terá condução do publicitário e poeta Rafael Zen. No dia 17 haverá uma mesa redonda com jornalistas falando sobre “Fake News”. A programação está disponível no Facebook, na página ContraPonto e também no Instagram @sejacontraponto.

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21/03/2018 – É pra criança?

Uma questão recorrente a quem trabalha com teatro e contação de histórias é a adequação dos trabalhos à faixa etária do público. Pais e professores se preocupam com o conteúdo dos contos ou cenas, com o vocabulário e indagações que possam surgir na cabeça da criança. Acho difícil estabelecer essa divisão, e sempre lamento que, por causa dela, os adultos sejam excluídos de alguns espetáculos, por terem “passado da idade”.

Os contos de tradição oral nasceram numa época em que a crianças não eram poupadas de cenas violentas, sangrentas e recheadas dos piores sentimentos humanos. A mesma história era contada para todos, independentemente da idade. Claro que com tantos estudos e avanços no campo da psicologia e pedagogia muitas adequações foram feitas, a fim de educar, entreter e criar fruição sem precisar horrorizar. Criou-se então uma literatura, bem como um teatro, dito infantil, direcionado e pensado para esta fase da vida humana.

Porém, existe também uma extrema rotulação dos conteúdos, o que muitas vezes dificulta o acesso de adolescentes e adultos ao universo lúdico e poético de espetáculos artísticos.

 

É pra adulto?

Essa urgência em advertir e convidar amigos e leitores para assistirem a próxima peça que virá a Brusque pelo projeto BQ (en)cena, amanhã, dia 22, surgiu dessa questão: teatro sensível, que narra episódios de infância, com sensibilidade e utilizando bonecos, e que não é SÓ para crianças.

Assisti “Por que nem todos os dias são dias de sol?”, no FITA – Festival Internacional de Teatro de Animação, em Florianópolis, no ano passado. No palco o que se vê são quatro histórias bem contadas, que remetem a episódios e sensações comuns a todas as infâncias, propondo uma atmosfera nostálgica nos adultos. Também apresenta cenário, trilha sonora, direção e atuações impecáveis, além da mágica em dar vida aos bonecos, o que encanta as crianças. De todas as idades!

 

É pra criança e pra adulto!

O espetáculo da Artesanal Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, é dividido em quatro contos. O primeiro fala de um menino que tem medo de uma velha que se senta todos os dias no banco de uma praça. Porém, sua curiosidade faz com que ele se aproxime dela e descubra que as lembranças são histórias que contamos para as outras pessoas. O segundo fala de uma menina que gosta de pássaros, tenta ajudar seu vizinho a soltar uma pipa que ficou presa nos galhos de uma árvore. O terceiro traz um homem que conversa com objetos em seu escritório, após seu filho ter lhe dito que prefere continuar criança para sempre, pois acha que é muito chato ser adulto. O quarto, conta a história de uma menina que engole uma semente de laranja, achando que dessa forma um bebê irá crescer dentro de sua barriga. Mas ao perceber que nada acontece, começa a achar que uma árvore está crescendo dentro dela.

A apresentação de “Por que nem todos os dias são dias de sol?” acontece no dia 22 de março, às 19h30min, no Teatro do CESCB. Os ingressos estão disponíveis na Livraria Graf e na bilheteria do teatro, a R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

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14/03/2018 – Palmas ao maestro

Nesta semana presto homenagem e reverências a um dos maiores artistas brasileiros, maestro e compositor, nascido em Brusque no ano de 1928. Trata-se de Edino Krieger, que no sábado próximo celebra seus 90 anos, junto dos familiares na cidade do Rio de Janeiro, onde vive desde os 15 (salvo períodos no exterior). Na capital fluminense, assim como em diversas cidades do país, haverá eventos comemorativos e, entre amigos e família, certamente um brinde com um excelente vinho tinto – talvez o segredo da disposição, sabedoria e bom humor do aniversariante.

 

Diz que é de Brusque e não conhece Edino Krieger

Ocupante da cadeira 34 na Academia Brasileira de Música, Edino Krieger iniciou seus estudos de violino ainda criança, quando vivia em Brusque, graças ao incentivo do pai-professor, o também maestro Aldo Krieger. Após demonstrar talento e receber uma bolsa de estudos do governo catarinense, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou no Conservatório Brasileiro de Música. Em 1948 foi escolhido por concurso para estudar no Berkshire Music Center de Massachusstes, EUA. Em Nova York estudou composição na renomada Juilliard School of Music e atuou como violinista na Mozart Orchestra.

Retornou ao Brasil em 1950 e ingressou na Rádio Ministério da Educação, em que foi diretor musical e organizou a Orquestra Sinfônica Nacional. Com bolsa do Conselho Britânico estudou em Londres, na Royal Academy of Music.

Nos anos seguintes recebeu diversos prêmios em concursos e festivais e teve composições interpretadas por grandes orquestras do mundo. No ano de 1975 criou a Bienal de Música Brasileira Contemporânea – evento que se realiza até hoje.

Como gestor cultural foi diretor artístico da FUNTERJ – Fundação de Teatros do Rio de Janeiro, diretor do Instituto Nacional de Música, presidente da FUNARTE – Fundação Nacional de Arte (Ministério da Cultura), da Fundação Museu da Imagem e do Som (RJ) e da Academia Brasileira de Música.

Suas composições incluem obras para orquestra sinfônica e de câmara, oratórios, música de câmara, obras para coro e para vozes, instrumentos solistas, além de partituras incidentais para teatro e cinema.

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07/03/2018 – Vermelho-fêmea

Nem só de rosas vermelhas se faz um Dia da Mulher. Receber um mimo nessa época de desconstrução de valores e luta contra violências diárias acaba sendo representativo, mas abaixo da ponta do iceberg há muito mais. Lembrar do papel da mulher nas sociedades passadas e na atual, refletir, pesquisar, enfim, falar do assunto, eis o grande feito desta data. Em Brusque, algumas iniciativas artísticas procuram agitar as comemorações.

 

Vermelho-Chapeuzinho

O conto clássico da menina que se perde na floresta e é enganada pelo lobo mau ganha releitura por meio da habilidade do francês Joël Pommerat, um dos nomes mais relevantes da dramaturgia contemporânea mundial. A obra já realizou mais de 800 apresentações na Europa e foi montada no Brasil em 2017 pela Rococó Produções e Projeto Gompa, do Rio Grande do Sul. A encenação brasileira propõe estética de teatro adulto ao mesmo tempo em que a fábula é pensada também para crianças. A montagem busca dialogar com as diversas idades de espectador, construindo um espetáculo com distintas camadas de leitura. A obra propõe-se a ser uma “iniciação ao medo”, na medida em que uma Chapeuzinho deseja sair de casa e iniciar-se na vida adulta, que tanto lhe fascina e apavora. É o encontro da criança com o risco frente ao desconhecido, tratando de temas como o medo, o fascínio da passagem do mundo infantil ao adulto, a solidão e as relações familiares.

Em Brusque, como parte da terceira temporada do BQ(en)cena realizado pela Prisma Cultural e Ministério da Cultura, o espetáculo terá dupla sessão: hoje, 7 de março, às 19:30h e amanhã, dia 8, às 14:30h, no Teatro do CESCB. A classificação indicativa é a partir dos 7 anos e os ingressos antecipados podem ser adquiridos na bilheteria do teatro e na livraria Graf, por R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada).

 

Vermelho-palco

O Sesc de Brusque também promove uma programação especial para o Dia da Mulher, no domingo, dia 11, das 10 às 15:30h. No evento “Palco das Artes – Mulheres em Cena” haverá literatura, teatro e música. Durante todo o período ocorre a Folia dos Livros – Estação literária e o painel interativo “Não é Mimimi”, do Coletivo Feminista Maria Vai Com as Outras. Às 10:30h acontece o aulão de Defesa Pessoal para Mulheres, com o instrutor Paulo, da Pa-Kua Brusque.

Para o público adolescente (13 a 17 anos) será oferecido o workshop de Jazz Adolescente, às 11:15h. Ao meio-dia o Duo MPB Rívia Mickaelly e Rodrigo Erbs faz show, e às 14h é a vez do espetáculo teatral “Antiprincesas”, com o Grupo Duas e Só, de Florianópolis. Na peça em forma de contação de histórias três importantes e inspiradoras mulheres latino-americanas são apresentadas: Clarice Lispector, Frida Kahlo e Violeta Parra. Por fim, às 15:30h, ocorre o Sarau das Artes, uma troca cultural e afetiva em torno da poesia, literatura, música e dança. Todas as ações são abertas ao público, com entrada franca, e ocorrem no Sesc.

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28/02/2018 – Imagem e ação

Um espaço cultural recém inaugurado em Brusque traz no mês de março diversas atividades para quem deseja apreciar e aprender sobre vídeo, cinema e sociologia. Trata-se do Guilda Coworking, uma iniciativa particular, portanto regada a muito suor e coragem, do ilustrador Leandro Cogo Bolsan. Na gerência do local ainda estão Guilherme Muller e Giovana Busch, promovendo eventos e fazendo acontecer num casarão que abre suas portas a quem desejar um espaço de trabalho, no estilo coworking (numa tradução livre: cotrabalho, ou seja, um modelo de compartilhamento de espaço e recursos de escritório).

 

Pipoca

O projeto “Cineclube Aura” do Coletivo Hiato em parceria com o curso de Publicidade e Propaganda da UNIFEBE promove sessões de filmes, buscando mostrar os autores por detrás de suas obras, que sacrificam sua parcela comercial e de sucesso no mercado audiovisual em nome de uma arte. Em março ocorrem três sessões, nas quintas-feiras às 20 horas, abertas ao público gratuitamente. No dia 1º o filme exibido será o documentário “Que Bom Te Ver Viva” de Lúcia Murat (1989), no dia 8 é a vez de “Amarelo Manga” ficção de Cláudio Assis (2003) e no dia 15 será “Estamira”, documentário de Marcos Prado (2006).

 

Video

Iniciando no dia 6 e com cinco encontros em que serão apresentados conteúdos e etapas de trabalho de uma produção em vídeo, acontece o curso intensivão de Edição de Vídeo em Adobe Premier. A organização é do filmaker Carlos Alexandre Martins, da Griô Filmes. O curso habilita dar início aos seus primeiros projetos em áudio visual, e também esclarece ideias sobre o mercado freelancer, unindo a teoria e estudos de temas como composição de cor, cortes, efeitos de transição, edição de áudio e trilha, etc. As aulas ocorrem nas terças das 18:30 às 21:30h.

 

Cinema

Nas segundas-feiras de março até meados de julho, o curso de Cinema ministrado pelo cineasta Ricardo Weschenfelder visa articular conteúdos teóricos sobre a história, a linguagem e a narrativa cinematográfica com a prática de roteiro, gravação e edição em cinema (vídeos e curta-metragens). Na ementa estão conteúdos como: Gravação e edição em audiovisual, História do Cinema e do Audiovisual: do Cinematógrafo ao YouTube, Escrita e formatação de roteiros para cinema, Cinema Moderno, Roteiro cinematográfico e Pré-produção, gravação e edição de um curta-metragem feito pelos alunos.

 

Pensamento

Também no primeiro semestre, com encontros quinzenais aos domingos, Rafael Zen propõe a desmistificação dos estudos sociais, debatendo alguns dos conceitos mais urgentes para se entender o momento contemporâneo. Entre questões dos campos da sociologia, filosofia, estética e política, cada aula irá propor reflexões sobre os modos de existir e conviver, traçando paralelos com o mundo das artes e da cultura. O curso Café com Texto: Pensadores Contemporâneos Para Entender a Sociologia da Cultura, traz autores importantes para o centro da roda, como Michael Foucault, Judith Butler, Guy Debord e Marcia Tiburi, além de um café com bolo especiais, no estilo “casa de mãe”.

 

Lugar

O Guilda Coworking fica na Rua Sete de Setembro, 483, bairro Santa Rita. Mais informações na página do Facebook ou pelo telefone (47) 3308-2590.

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21/02/2018 – Saindo das sombras

Imagine um lugar quase escuro e uma história sendo contada. Imagine feixes de luz e muitas sombras de onde nascem formas, personagens e cenários. Imagine estar dentro disso. Certamente uma experiência única e inesquecível, para quem se dispõe ao lúdico. O que se esconde na penumbra? O que se revela nela?

Não há palavras. Dentro de um enorme balão a plateia sonha e acompanha o enredo de “O marujo e a tempestade”, espetáculo da Companhia de Teatro Lumbra/Clube da Sombra, de Porto Alegre, que abriu a temporada 2018 do projeto BQ(en)cena.

Após a performance que dura 14 minutos, o público é convidado a interagir, criando ele mesmo novas proposições com os objetos usados na história e sua própria sombra corporal.

O espetáculo criado em 2005 chega a Brusque, Guabiruba, Botuverá e Nova Trento por meio da iniciativa da Prisma Cultural, produtora atuante que nesta terceira temporada abriu os horizontes para outros municípios. A proposta é sólida, cuidadosa e está fazendo o que a maioria dos governos não faz com relação à cultura: criar periodicidade. Através da dedução de impostos de empresas parceiras está sendo possível trazer a Brusque (e região) importantes grupos e espetáculos nas mais variadas linguagens, graças também a uma curadoria apurada. Importante salientar que na segunda edição do projeto, a partir da realização de uma oficina-montagem, nasceu a peça “Ao Som dos Teares”, que revelou talentos locais e mexeu com a curiosidade dos brusquenses sobre um fato histórico local.

A estreia desta circulação de “O marujo e a tempestade” ocorreu ontem, na Praça da Cidadania de Brusque e segue para as cidades vizinhas hoje, amanhã e sexta, sempre às 19:30h, com entrada franca. Para saber mais informações sobre as apresentações acesse http://www.prismacultural.com.br.

Como desdobramento do projeto, a Cia Lumbra ministra uma oficina neste sábado, dia 24, em que os participantes poderão conhecer os conceitos das pesquisas e as referências estéticas que a companhia desenvolve nos seus espetáculos. A “Vivência no Teatro de Sombras – Territórios Desconhecidos” ocorre no Salão Comunitário São Pedro, em Guabiruba, das 9 às 12h e das 13:30 às 18:30h, gratuitamente.

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14/02/2018 – Antes de falar de arte, estude

Nas redes sociais um dos assuntos de maior (des)conhecimento geral é a arte e suas ramificações. Reflexo da vida real, néam? Cita-se Veríssimo e critica-se a Lei Rouanet com a mesma base de pesquisa, ou seja, nenhuma. Compartilha-se imagens de apresentações com legendas equivocadas e surgem comentários preconceituosos e mentirosos sobre artistas e movimentos culturais.

O ensino da Arte ainda é precário no Brasil – palavra de quem esteve por 8 anos em sala de aula. Mesmo em colégios particulares, em que a maioria dos pais, alunos, corpo docente e funcionários, acha que a disciplina não precisava existir. Ou é aquele momento na semana para preparar a decoração da festa da escola ou ensaiar a quadrilha. Não se encara Arte como objeto de estudo, como área de trabalho. Meus alunos ficavam espantados ao saber que existia Mestrado em Teatro, por exemplo.

Numa cultura de cidade pequena como Brusque (não em tamanho, mas em provincianismo) a falta de um mínimo conhecimento em Arte está proporcionalmente relacionada ao nível de entusiasmo em ser rico, ter poder, vender e comprar.

Contra tudo isso, buscando acender uma faísca de debate, conhecimento e reflexão, alguns bravos guerreiros nadam contra a maré. Um exemplo é a artista visual Vânia Gevaerd, que há muito tempo espalha seus conhecimentos de forma independente, insistente. O Curso de História da Arte ministrado por ela há alguns anos já fez maravilhas por quem passou pelas diversas salas de aula onde ocorreu.

Em 2018 duas novas turmas estão em formação, a partir de março: nas terças das 19 às 21:30h e nas quintas das 14 às 16:30h. Ao longo do ano serão abordados diversos assuntos pertinentes à Arte, suas causas e consequências. As aulas ocorrerão na Escola de Idiomas Magnus, que fica na Rua Hercílio Luz, e as inscrições podem ser feitas pelo e-mail vaniavollrath.10@gmail.com.

Uma pedida pra quem quer ampliar o leque de assuntos nas rodinhas de amigos e, de quebra, poder compartilhar e curtir notícias sobre Arte com alguma propriedade.

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07/02/2018 – Beltranas também é cultura

A partir desta semana, teremos um espaço todo especial para abordar a arte e cultura promovidas e produzidas em nossa cidade. É mais uma tentativa de resistir a toda essa avalanche de escândalos, opiniões raivosas e produções midiáticas que sugam nossas energias. Combateremos então com música, poesia e tudo mais que desperta beleza e faz pensar.

Vivemos tempos sombrios nas artes, em que obras são atacadas e governos e instituições buscam ofuscar e, assim, afastar o público delas. Uma tática conhecida na História, mas que ainda surte efeito, e que conta inclusive com alguns artistas e sua desinformação.

Mas como trazer o público para perto, fazê-lo comtemplar, discutir? Lembro de há uns dez anos as pessoas reclamarem muito da falta de opções culturais em Brusque. O que mais se ouvia: “Aqui não tem teatro” ou “Nunca tem nada pra fazer nessa cidade”. Muitas coisas melhoraram. Foi criado um edital público municipal que anualmente oportuniza em média 12 novos projetos, bem como surgiram iniciativas particulares como o Teatro do CESCB, os eventos do SESC, o Cantoria, a Mostra Jogral, o BQ (em)cena, Coletivo Hiato, produtoras de filme, grupos de artes visuais, enfim, houve um movimento interessante. Na parte pública, por meio da Fundação Cultural, formou-se o Conselho de Cultura e foram criados eventos como o Festival de Inverno, a Semana Aldo Krieger, a Feira do Livro, entre outros.

Então, se há opções (muitas delas gratuitas ao público) e acesso aos bens culturais, por quê ainda é tão difícil atrair as pessoas para as plateias? Responda aí, em pensamento, você leitor, você que é nosso respeitável público. Se a resposta for “falta de divulgação”, aí a gente pode conversar mais de perto.

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04/12/2017 – Estado, cultura e desgoverno

Não é de hoje que o nosso estado vira notícia quando não cumpre com leis e planos de governo. Se em áreas essenciais como saúde e educação isso ocorre, o que falar da cultura, vista sempre como uma pasta-apêndice?

Principal edital de cultura do estado, o prêmio Elisabete Anderle foi instituído pela lei 15.503 de 2011 e deveria ser anual. No entanto, a última vez que ocorreu foi em 2014 e, três anos depois, em 2017, lançou uma nova edição que – apesar de credenciar e selecionar projetos – não cumpriu as datas informadas para o pagamento dos contemplados, alterando-as diversas vezes. O último comunicado oficial informava que os pagamentos seriam realizados em novembro – o que não aconteceu. O edital é gerido pela Fundação Catarinense de Cultura e Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte, atualmente comandadas por Rodolfo Pinto da Luz e Leonel Pavan, respectivamente.

O Prêmio Elisabete Anderle não garante mais dinheiro para os artistas e sim mais cultura e desenvolvimento para o todo. Este prêmio, que corresponde a menos de R$ 1,20 por habitante catarinense, não chega nem perto das necessidades de fomento do setor e é irrisório se comparados aos incentivos fiscais concedidos a diversas empresas e indústrias de outras áreas – inclusive àquelas que destroem o meio ambiente.

Assim, 175 projetos culturais correm o risco de não ser realizados, dentre eles três da cidade de Brusque: criação do Plano Museológico do Museu Histórico do Vale do Itajaí-Mirim (Casa de Brusque), edição do livro “Família pelo mundo – Uma volta ao mundo de carro com duas crianças pequenas” de Adriana Tormena Tomasi e a circulação do espetáculo de narrativas “Linhas e Tramas”, criado e apresentado por esta que vos escreve.

Em setembro a FCC promoveu um grande evento no Teatro do CIC para premiar todos os contemplados e celebrar a assinatura dos contratos. Em seguida, cada proponente abriu uma conta para o recebimento do recurso, conforme as orientações. Alguns projetos estavam programados para realização logo após a data prevista para o repasse, e tiveram de ser adiados.

Outro edital aberto pela mesma Fundação Catarinense de Cultura, o Estação Cultural, também apresenta inúmeros problemas e pode não ocorrer, mesmo tendo selecionado 50 projetos. Pelo jeito o vagão da Cultura está bem desgovernado.

Entendeu a chuva de vaias, Raimundo?

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08/11/2017 – Bem, eu não dirijo ou Eu não dirijo bem

Para muitas pessoas o marco principal para a vida adulta se dá quando se tira a habilitação para dirigir. A tal sensação de liberdade, de poder ir e vir, a independência. Para outros, o momento de guiar um carro acontece depois, pelos motivos já citados e pela questão de necessidade de mobilidade. Para uma minoria, nunca ocorre.

Eu sou dessas poucas criaturas que não se interessou por pilotar um carro. Nem moto. Nem nada com motor. E como toda minoria, enfrento vez ou outra as caras indignadas e exclamações do tipo: “Tu não dirige? Sério?”

Há alguns dias assistindo ao programa Café Filosófico no canal Território Conhecimento no Youtube com o filósofo Mario Sérgio Cortella, ele relatou o mesmo caso. Disse que quando alguém surge com a pergunta, ele dispara: “Não, não dirijo, não boto ovo, não fabrico rádio. Tem um monte de coisa que eu não faço.” Ele compara com a mesma relação que estabeleceu com as redes sociais, nas quais está praticamente ausente “não por recusar, mas por ter outras prioridades”.

Simples assim. Às vezes não fazemos algo por não conseguir, por falta de habilidade. E tudo bem. Melhor não fazer mesmo, se dedicar a outras atividades. Em outros casos, não fazemos por escolha, por falta de afinidade, ou de necessidade. E tudo bem também.

No caso de dirigir – algo tão comum e tão banal – a cobrança pode vir exatamente por isso. Como eu não faço algo que todo mundo faz com facilidade? Por que ninguém se cobra ou é cobrado socialmente por não saber fabricar um rádio, não saber podar uma roseira ou não ter escrito um livro?

Em casa sempre convivi com isso, já que meu pai não dirige e ouvia dele: “Aqui em Brusque, só eu o fulano e o beltrano”, com ar de surpresa. Mas mundo afora, além do Cortella, muitos outros notáveis não eram motoristas, como Woody Allen, Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Paulo Francis e o genial Jean Paul Sartre. E não posso deixar de citar o italiano Mino Carta que nunca dirigiu um carro, apenas a revista Quatro Rodas, ironicamente.

Entre as mulheres estão a atriz Luana Piovani que declarou: “Não dirijo, não cozinho e não ando a cavalo. Acho importante conhecer os meus limites”. Mais próximas, as colegas beltranas Claudia Bia e Silvia Teske são comumente encontradas caminhando pelas ruas da cidade, como eu, com meu passo apressado, mesmo sem pressa.

Compartilhando o tema com elas, me retornaram com os depoimentos:

“Eu desconfio que tem a ver com aquele pedacinho Peter Pan que teima em existir dentro de mim – e que nem é tão ‘inho’ assim. Dirigir, ambicionar automóveis, essas coisas sempre foram adultas demais para caber em mim. Exigiria todo um espaço de responsabilidade sisuda que, confesso, me dá muita preguiça. Acho que nasci para ser passageira e viver de carona com os amigos. E para bater perna por aí.” (Claudia Bia)

“Sim, eu não dirijo carro e nem bicicleta. Me locomovi a vida toda de carona ou a pé. Na maior parte das vezes de táxi, recebi até apelido de Angélica: ‘vou de taxi…!’. Hoje já tem o Uber, que às vezes funciona outras não, mas é um alívio. A maioria se surpreende muito quando digo que não dirijo: ‘Nossa, uma mulher contemporânea? Uma mulher independente? Como assim, não dirige? Vai fazer terapia pra dirigir!’ Enfim, várias opiniões sobre minha escolha. Tirei a carteira de motorista duas vezes, e o máximo que consegui foi ir dirigindo uma vez apenas daqui a Curitiba. E até que foi legal, não tinha sinaleira! kkkkk Tenho pânico de volante…até porque sou muito desligada e ao mesmo tempo muito tensa com essas coisas de lateralidade. Mas, na maioria das vezes isso não me incomoda…e acaba que percebo que gasto muito menos com táxi ou Uber do que gastaria se tivesse que sustentar um carro. (Silvia Teske)

Também reforço que é possível viver muito bem sem guiar carro, buscando outras possibilidades, focando em outras prioridades. E que cada um seja realizado e feliz com as suas.

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11/10/2017 – Jogral – fazendo arte há 10 anos

No ano de 2007 eu acabava de voltar de uma temporada morando em Londres e o período de readaptação a Brusque incluía repensar um rumo profissional. Levou semanas, meses até, quando decidi que iria ser artista, seguindo todos os testes vocacionais que haviam sido apontados na época do colégio e que foram substituídos pela decisão por Jornalismo. Dos estudos acadêmicos adquiri diversos aprendizados que dizem também respeito ao universo das artes e da produção cultural. No meio dessa busca, conheci um novo grupo de teatro que ser formara há pouco na cidade, sob coordenação da professora Eliane Lisbôa. Não sabia direito de quem se tratava, só que ela estava dando aulas para Letras e Pedagogia na Unifebe e ministrava um curso de teatro da Zen S/A. Eliane havia sido docente na Udesc por 13 anos, em disciplinas como Dramaturgia, Crítica Teatral, Estética e Teoria Teatral. Encontrou em Brusque um grupo ávido por aprender e encenar, e assim criou a Cia Jogral de Teatro.

Após os primeiros trabalhos – a montagem da peça “Um Inimigo do Povo” de Henrik Ibsen e de leituras dramáticas – o grupo sentiu necessidade de se profissionalizar e se constituiu como Associação Jogral de Arte e Cultura. Fui convidada para participar da leitura de “Ritorno a Corallina”, do argentino Juan Carlos Gené e logo depois para me associar.

O nome Jogral, na lírica medieval, até o século 5, era o artista profissional de origem popular – um vilão, ou seja, não pertencente à nobreza – que tanto atuava nas praças públicas, assim como nos palácios senhoriais, neste caso assumindo o papel de bufão, com suas sátiras, mágicas, acrobacias ou mímica. Os jograis eram todos aqueles que ganhavam a vida atuando perante um público.

Em 2009 Eliane mudou-se para Campina Grande, na Paraíba, a convite da Universidade de lá. Então, o grupo que estava formado decidiu continuar os trabalhos por aqui. Desde então foram diversos espetáculos como “Nelson em Pedaços” (2009), “Paraíso num Saco de Pipocas” e “Faz de Conta” (2010), “Lisístrata” (2011), “Orfeu” (2012), “Palavra de Mulher” (2014), Corpo Oral (2015) e “Linhas e Tramas” (2016).

Desde 2012 a Associação atua também como produtora cultural promovendo eventos como o “Sarau da Jogral” (2013), a “Caravanserai – feira de artes e brechó” (2014 e 2015) e a Mostra Jogral (2012 a 2015). Também agregou associados de outras áreas artísticas como Música, Artes Visuais, Literatura e Artesanato.

Em 2017, por meio de projeto aprovado pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Brusque, a Associação realiza a Mostra Jogral 10 anos, entre os dias 11 e 14 de outubro, no Sesc. A programação é composta por trabalhos de associados, exposição do histórico da Companhia, sarau, além de oficina e palestra com a diretora Eliane Lisboa, que volta à cidade para comemorar o 10º aniversário da semente que plantou.

Atualmente a Associação Jogral tem em seu quadro 15 artistas associados, e alguns fazem parte de outros grupos ou companhias parceiras como a Cia Sandra Baron, o Coletivo Hiato, Capim Santo e Confraria Bordadeira de Brusque.

Com o objetivo de agregar mais artistas e produtores, promover eventos coletivos, além de mapear a produção local, na programação está prevista uma conversa aberta aos interessados “Coletivos e Grupos – como podemos produzir mais juntos”, na sexta, dia 13, às 17h.

Programação da Mostra Jogral – 10 anos

Dia 11.10 – quarta
19h – Cerimonial de abertura e Mostra “Cia Jogral – da matéria à cena”
19:30h – Sarau de música e poesia

Dia 12.10 – quinta
9 às 12h e 13 às 16h – Oficina “Direção teatral” com Eliane Lisbôa (inscrições na Central de Atendimento do Sesc)
16h – Espetáculo “Um, dois, três: canto e conto com vocês!” com Emiliano de Souza (indicação: 4 anos)
19h – Show musical “Capim Santo” com Calinho Luminoso e Didi Maçaneiro

Dia 13.10 – sexta
17h – Conversa “Coletivos e grupos: como podemos produzir mais juntos”
19h – Espetáculo “Contos da Ilha da Magia” com Sandra
Baron (indicação: 8 anos)

Dia 14.10 – sábado
17h – Espetáculo “Linhas e Tramas” com Lieza Neves (indicação: 8 anos)
19h – Palestra “Teatro e sociedade” com Eliane Lisbôa

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06/09/2017 – UÉ!

Eu sou a madrinha. Fui uma das primeiras a vê-lo, logo depois de nascer. Peguei no colo e inventei brincadeiras mil. Fui acarinhada sendo escolhida pela Karline, recebi a tarefa de ajudar, orientar.

Não me refiro somente ao meu afilhado Isaac, que acabou de completar 9 anos, mas também a esta coletânea de poesias propostas por ele ao longo de sua caminhada e tão atentamente transformadas pela escuta materna.

Fui a madrinha ao ser escolhida para produzir a mostra que teve projeto aprovado pelo Fundo Municipal de Cultura, através de edital, e que agora estreia, com frases e diálogos recheados de doçura e sapiência. Fiz a conexão entre as palavras e as imagens da Silvia, propondo uma conversa que “tinha que acontecer”.

O conteúdo da mostra nos desconcerta pela simplicidade, pelo jogo do imaginário, por nos investigar como crianças que já fomos. Talvez se não tivéssemos parado de perguntar e nos encantar com o que nos cerca seríamos todos Manoel de Barros.

Ué! Mostra literária e visual (programação gratuita)

06/09, às 19h – Abertura e palestra “A importância do reencantamento pelo mundo por meio da voz da criança” com Karline Beber Branco, no auditório da Faculdade São Luiz

Visitação:
06 a 18/09 – Faculdade São Luiz
18/09 a 29/09 – Fundação Cultural
29/09 a 09/10 – Uniasselvi/Assevim
09/10 a 20/10 – Sesc

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16/08/2017 – Tens tempo!

Essa louca vida louca de artista-autônoma me faz ter uma rotina bem diferente da maioria das pessoas que eu conheço. Hoje posso dizer que me relaciono muito bem com o tempo. Ele tornou-se meu aliado e não um inimigo, como também relata a poetisa Viviane Mosé. E eis que muitas vezes, frente às situações que envolvem as formas de uso do tempo e que atravessam meu caminho, me deparo refletindo sobre o tema.

Comum é as pessoas me perguntarem “E aí? Muita correria?”. Perguntam esperando avidamente por uma resposta positiva, seguida de um suspiro. Nossa herança colonial nos obriga a estar sempre cansados, nos impõe a sensação de satisfação relacionada à quantidade de trabalho. Eu digo: “Não, não tô na correria não”. Meu ofício me traz prazer por ser o que é não pelo quanto me paga. Aquela história de trabalhar para viver e não o contrário, sabe?

Dia desses encontrei uma ex-colega que me contou ter saído da empresa onde trabalhava por 12 anos, tinha um cargo ótimo e um salário farto, e estava mudando de cidade, para fazer outra coisa, “qualquer coisa, cansei, tava gastando boa parte do salário em remédio, eu quero ser feliz”. E este não é um caso isolado. Vejo um movimento em direção a uma vida mais simples, sem tantos compromissos, com mais tempo.

Trabalhando em casa muitas vezes, me divido entre elaborar projetos, fazer tarefas domésticas, ensaiar, assistir a um documentário, decorar um texto, cozinhar, etc. Não tem expediente. No meio disso eu paro para gravar um vídeo que vai alegrar os amigos, faço casinha para as gatas, crio memes, faço montagem de fotos e escrevo cartões de aniversário. Na última Páscoa me vesti de coelho e gravei vídeos por seis dias com charadas para o meu afilhado adivinhar e assim ganhar sua cesta do domingo.

O que mais ouço? “Tens tempo, né?” Tenho. Temos. Democrático e preciso, igual para todos.

Dica da Lilica: Chegou a Brusque o Banco do Tempo, uma iniciativa que visa justamente utilizar as horas como moeda. Deem uma olhada, é muito legal!

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17/05/2017 – Eu olho mesmo

Sabe quando a gente cruza o olho com alguém que tem algo que chama a atenção? Normalmente algo diferente da gente, ou do comum, da maioria. Então, aprendemos que ser educado é não olhar. Pega mal. Ficar encarando, analisando. Deixa o outro constrangido.

São posturas do mundo adulto. Porque criança, até a idade de alguém ter ensinado que “ficar olhando” e “apontar o dedo” é feio, olha sem pudor. Olha sem desviar o olhar. Podem experimentar. E se a gente mantém, mesmo sem fazer careta, dar tchauzinho, ela continua olhando.

Esse olhar é de investigação. Olhar de conhecer o outro. E perdemos isso com o tempo. Fazer isso com pessoas estranhas então, é proibido.

Muitas vezes andando nas ruas (e eu ando muito!) me pego lendo a figura de alguém que cruza meu caminho, ou que está sentado, ou me atendendo numa loja. E normalmente são as pessoas que menos devemos olhar. Por educação.

É errado olhar aquele que tem uma prótese na perna, ou a senhora de lenço no lugar de cabelo, ou a menina com uma tatuagem enorme na panturrilha, ou o homem que treme ao levar a xícara de café à boca. Também não devemos olhar para quem tem outra cor de pele, outro tipo de cabelo. A mãe que traz no carrinho uma síndrome, um acidente genético, um “por quê?”. Não devemos olhar cicatrizes e outras marcas na pele.

No meu ritmo acelerado, passo o olhar por segundos, ou frações de um, por estas pessoas. E pela boa educação, só olho mais quando não estão me vendo, “boto reparo” nessas pessoas que têm suas marcas da diferença.

Imagino que atrás de cada uma tem uma história. Um acidente, uma doença, um momento de ruptura. Uma repressão, uma vontade de ser visto. São todas dores. E elas aparecem, não são como as dores da alma, choradas em casa, disfarçadas de sorrisos diários. São sinais de dores, assinaturas de que ali naquele corpo ela já se alojou alguma vez.

Por isso eu olho. É meu jeito de reconhecer a humanidade, vendo pessoas e suas dores passando para lá e para cá, com seus olhares de fortaleza, de quem tem uma grande história para contar.

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10/05/2017 – Presente no Dia das Mães

Mês de maio entrando e um filme estranho repassa na minha mente. Foi no ano passado, dia das mães, 8 de maio, que a minha sentiu a dor que a levaria para longe de nós em um mês.

Quando criança fiz uma maçã de papel guiada pela professora do jardim de infância e dançamos em homenagem a este dia. Outra vez encenamos um bolo, cada aluno era um ingrediente, e eu estava vestida de baunilha, para lhe arrancar aplausos emocionados. Como negar as lágrimas diante do filho pequeno fazendo gestos descoordenados num palco?

No ano passado eu trouxe presentes, ela estava no sofá, não deu muita atenção, agradeceu mas não quis ver com detalhes. Era a dor.

A dor dela passou a ser minha. E aumentou a cada dia, por um mês.

Desde então, diariamente, em algum momento, lembro dela. Da voz que cantava enquanto passava roupa, das mãos cuidadosas arrumando as orelhas de gato em cima da mesa, da textura do cabelo, do contorno das unhas que volta e meia eu arrumava e pintava. Sempre tem essa hora do dia. Passando o café, escovando os dentes ou fazendo nada, a lembrança vem. E assim que vem eu penso: Tá aí! O momento de hoje!

Eu não quis ter filhos e uma vez ela me disse que no meu lugar também não teria. Ironia pura, de alguém que tinha na maternidade sua maior vocação. Fico pensando o que ela seria se não tivesse sido mãe, no que poria tanta dedicação. No hospital uma enfermeira perguntou: a senhora também é avó? Ela me olhou, sorriu e disse: Não, e olha, se fosse eu hoje em dia também não teria filho. Se bem que agora tenho ela aqui, cuidando de mim.

Um mês de papeis invertidos. Passei a cuidar, dar banho, velar o sono. E enfim veio a despedida. Era eu que estava lá com ela. Só nós duas, uma testemunhando o nascer da outra para uma nova vida, como um dia já estivemos, num quarto de hospital.

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03/05/2017 – Cabeça de pendrive

Eu gosto de pensar sobre memória. Como área de estudo, também como registro, a memória do que guardamos, informações, imagens, sons, cheiros, sonhos, até o mais intrigante déjà vu. Volta e meia analiso meu próprio mecanismo de memorização, me surpreendo com algumas capacidades e lamento a dificuldade com outras.

No caminho para Curitiba para passar o feriadão, meu irmão colocou no som do carro músicas de um pendrive, fez uma seleção anos 90/2000. Fomos e voltamos e nenhuma música se repetiu, o que me faz admirar a capacidade do pequeno dispositivo. Teve Spice Girls, Banda Eva, Ace of Base, Paralamas. E eu lá cantando tudo! Algumas músicas não ouvia há uns 20 anos e a letra vinha sem problemas, de cabo a rabo, com os “uuhuuu”, “aaahh” e as pausas. Lembrei até que o Pimpolho é um cara bem legal, gente!

Algo semelhante ocorreu esses dias em que assisti a uma missa, e mesmo depois de anos sem frequentar, lembrava de todas as respostas que tinha que dar, a cada oração do padre. Como lembro a música da propaganda da pizza com guaraná. E a da pipoca.

Me surpreende a coleção de memórias inúteis, aquilo que eu nem queria ter guardado e está lá, ocupando espaço. Eu sei nomes de personagens de novelas, o texto do comercial do Festival de Dança de Joinville de mil novecentos e bolinha, o jingle da Festa do Pinhão da mesma época, o Abecedário da Xuxa, os bordões dos Trapalhões, da Escolinha do Professor Raimundo e Sai de Baixo. Será que a memória da cabeça da gente tem limite? Assim, algumas informações estão ocupando o lugar de outras?

Porque, por outro lado, esqueço de datas, sequências históricas, e textos que um dia já tinha decorado e apresentei. Por que não escolhemos exatamente o que lembrar e o que deletar? Por que a cabeça da gente não poderia ser um grande pendrive, em que pudéssemos controlar o que entra, o que fica, o que é excluído?

Acho bonita a origem do termo “saber de cor”, que vem do francês “savoir par coeur”, ou seja, “saber pelo coração’. Porque para os antigos gregos o coração era a fonte da sabedoria, do conhecimento, não o cérebro. Me leva a concluir que guardo tanta tranqueira no coração, da Ragatanga ao tema de Tieta. O “pepino Califórnia, Califórnia babalu” também está lá.

Não dá pra formatar e perder tudo, nem selecionar o que enviar pra lixeira. Um arquivo não substitui outro em desuso. Vai-se somando informações. Aí dá pane, a gente esquece o nome do colega da escola, uma receita, um lugar visitado. Eita maquininha complicada, ainda em fase de testes.

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15/03/2017 – Mimimi de mulherzinha

Não tinha vivido um 8 de março como este último. Pela primeira vez vi, além de rosas vermelhas e recadinhos de parabéns, muito debate e reuniões de coletivos tomando espaços. Afinal, a data surgiu disto, de um momento histórico e com o objetivo simples de se tornar um marco da luta pela igualdade de direitos.

Em Brusque houve um movimento na praça, com cobertura da imprensa, dando voz aos anseios do grupo representante. Aí nos comentários de uma das publicações leio aquela enxurrada de absurdos, comentários machistas escondidos atrás de um perfil de rede social. Um menino de 15 anos mandando o grupo ir lavar louça. Sim, teve isso. Isso ainda é dito para tentar minimizar a reivindicação alheia. Aprendeu com o pai? Ou com a mãe? E qual o problema em lavar louça? Ou lavar roupa? Ou lavar o carro? Xuxu: errado é lavar dinheiro!

Outro sujeito escreveu “se querem igualdade porque não vão lutar para servir o exército como nós? Ahhh, aí não querem!!” Claro que não. Um ano simulando guerra, com humilhações dos superiores e recebendo um conteúdo que não acrescenta (um ano de estudos sobre ética e cidadania seria muito mais proveitoso), ninguém quer. E se os homens também cumprem por obrigação e não gostam – visto o tipo de comentário acima – deveriam tomar o exemplo das mulheres e se reunir em coletivos para mudar a situação. Não querem que até isso seja colocado em nossa pauta, já bem extensa, né?

E por quê frente aos movimentos feministas surgem os homens combatendo, xingando, sendo contra? Não entenderam o propósito ou não querem mesmo que os salários sejam iguais e que a violência diminua?

No primeiro caso, o que sobra é ignorância, e isso tem tratamento. Já no segundo, só posso crer que este perfil de homem esteja morrendo de medo, de perder cargo, posição, voz, direitos, vantagens, respeito, dinheiro. Poxa, medo de nós? Que nem estamos lutando contra eles? Hummm… tá me parecendo mimimi.

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01/02/2017 – Fotografia de um instante

Dia desses, andando pelo centro de Brusque, tinha que fazer hora, esperando meu namorado que estava no dentista. Resolvi gastar este tempo em meio aos livros e entrei na livraria. Entre as prateleiras, com um exemplar aberto nas mãos, olhos fixos na página, estava o dono do estabelecimento, que compartilha com ele o seu sobrenome. Eu o cumprimentei e ele sussurrou: Ihh, se a patroa me vê lendo, dá bronca! – referindo-se à esposa atrás do balcão.

O dono da livraria ama fotografia e já viajou para muitos lugares em busca dos melhores cenários e ângulos. Algumas fotos estão impressas em tamanho muito grande no andar de cima, outras estão emolduradas. Mas, ele viaja também através dos escritos e comentou uma angústia que partilho: a de ter tantos livros na fila da leitura. Parece que não vai dar tempo nessa vida de ler tudo!

Ali de pé, com a prateleira baixa nos separando, nós dois trocamos impressões e pequenas histórias de autores e enredos. São essas coisas que aproximam as pessoas. Ele me falou de “Sapiens – uma breve história da humanidade” e do recém lançado, do mesmo Yuval Noah Harari, “Homo Deus”. Mais dois pra minha fila.

Até que comentei que havia iniciado a leitura de um romance, livro que recebi de presente de aniversário do meu tio e padrinho, em maio passado e que só agora encarei a saga das mais de 800 páginas. O autor é o alemão Thomas Mann e o nome do livro é Budden…

– Buddenbrooks! Tenho aqui.

E me conduziu a outra prateleira onde estava a edição mais recente do clássico que deu a seu autor o Prêmio Nobel de Literatura.

– Espera um minuto. Vais ter uma surpresa!

Ele se afastou, foi até o escritório e, em menos de um minuto, voltava com uma preciosidade nas mãos, e que só pude ver e tocar por causa do acaso da conversa. Era uma edição de 1942 do livro que estou lendo, com capa de tecido, páginas amareladas e manchadas. Fiquei boquiaberta, passando a mão pelo objeto, me certificando que ele era de verdade. Não sei se me impressionou mais a existência do exemplar (e pensei: é um clássico mesmo, faz 75 anos e ainda é editado) ou a coincidência de ter entrado na livraria, do encontro e de ter falado sobre este livro com quem justamente o tinha há anos, numa versão antiga.

Saí de lá caminhando leve, com esperança nas pessoas e suas histórias, que são as matérias de ofício de pessoas como nós, assim sortudas.

P.S. exclusivo à esposa do dono da livraria: A parte que escrevi que ele lê escondido é ficção, inventei. Ele não lê não.

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11/01/2017 – Perceberam que a rainha estava nua

Em 2013 estive no Rio e assisti uma fala da escritora Adriana Falcão, numa sala com pouco mais de 20 pessoas. Ela falou abertamente sobre o desafio de ser roteirista de TV e de ter de escrever sob pressão ou sobre algo que não acreditava, por estar entre os interesses da empresa e sua arte. Não foi fácil ser criativa depois de tantos anos no ar com a Grande Família, com temporadas já encerradas e, a pedido da emissora, esticadas para mais um ou dois anos.

Adriana falou que a Globo estava mudando com relação ao tipo de roteiros, formatos de programas e conteúdos. Já se via, pois no ar estavam chegando com força total as novelas das 23 horas, com seus enredos mais elaborados, suas tramas mais amarradas e sem tanto apelo comercial e popular como as demais novelas. O público das séries americanas estava crescendo e exigindo histórias mais dinâmicas.

Não assisto TV, então o que acompanho é via Internet, e foi na rede que assisti a diversos vídeos do programa Zorra Total feitos recentemente. Ali, muita coisa mudou! Elenco mais afiado, formatos batidos de piadas jogados no lixo e humor com crítica e textos inteligentes.

Agora, o que nos surpreende (e está causando polêmica nas redes sociais) é a vinheta do Carnaval da Globo 2017. A Globeleza está vestida! Muita gente criticando, mas muita gente adorando, principalmente as mulheres, principalmente as mulheres negras. Há anos atacam o vídeo pela objetificação do corpo da mulher que nessa época do ano ganha destaque. E parece que a emissora concordou.

Acho significativo, mais até pelo “o quê” ela está vestindo. A nova vinheta é multicultural. Traz fantasias e danças dos carnavais de diversas partes do Brasil, não só do Rio como ocorria desde 1991, ano em que a Globeleza estreou. Tem frevo, maracatu, axé. Tem mais cores, tem mais diversão.

Obs.: O título do artigo refere-se ao excelente conto “A roupa nova do Rei” de Hans Christian Andersen. Pra quem não conhece (ou não lembra da infância), sugiro!

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23/11/2016 – A história de um telefone sem fio

Nós somos duas e somos oito. Eu, Pati, um telefone, roupas, perucas, chupeta, uma coroa de flores, um rádio, um bebê.

Monólogos e diálogos que contam o mesmo fato sob a perspectiva e versão de cada personagem compõem o texto da peça “Telefone sem Fio”, criado e encenado pela primeira vez em 1997, no palco do Centro Evangélico.

Desde então nos apresentamos em diversos locais, cidades, instituições, pois a montagem acaba abordando um tema cotidiano, nas relações pessoais e em ambientes de trabalho: problemas causados pela má comunicação. Tudo regado a muita comédia. A plateia se identifica de uma forma muito natural, pela história e pela empatia com as personagens. Ouvimos muitas vezes, após as apresentações: “A Dona Dulce parece uma vizinha minha” ou “Conheço alguém como a Wal”.

Texto e atuação de duas brusquenses, com personagens típicos da cidade, sotaques e expressões da fala, fazem do “Telefone sem Fio” um recorte da cultura local, sob um olhar irônico e caricato, que dispensa explicações ou releituras. A peça abusa da comédia sem apelar para estereótipos ou palavrões. A risada surge por causa da trama, das atuações, do texto, simplesmente.

E nós rimos junto, sempre. Uma da outra, durante ensaios e montagem do cenário, e nos poucos segundos de bastidores nas trocas de personagens, enquanto a outra sozinha em cena solta alguma frase engraçada.

São quase vinte anos de parceria nesse e em outros trabalhos, que fluem com leveza e conexão graças à amizade e sintonia incríveis que existem entre eu e a Pati. E entre a Wal, a Dona Dulce, o Max, o Seu Osmar, a Salete, a Gise, a Camila e a Taís.

A peça “Telefone sem Fio” será apresentada neste domingo, dia 27, no Teatro de Azambuja. Serão duas sessões: às 18h e às 20h. Ingressos a R$ 30,00 (antecipados na Livraria Saber – shopping Gracher).

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16/11/2016 – ¡Olé! 

Nesses dois anos de estudo de dança flamenca muitas vezes me peguei refletindo e analisando todo o conjunto de saberes, interpretações, ritmos, cores e personalidades que envolvem essa arte tão antiga. E como tudo que experimentamos e gostamos temos vontade de dividir com as pessoas, estou ensaiando um texto sobre o assunto há meses. Aí dou de cara com um conto da Clarice, chamado “Espanha”.  Claro, bate aquele impulso de não escrever mais nada, nunca mais.

Mas Clarice não dançava, então posso redigir algo do ponto de vista da cena (o que alguém já deve ter feito lindamente, e nem procurei, pra não desistir de vez).

Mais do que dança, flamenco é arte da escuta, de apurar os ouvidos para as batidas de cada palo (assim se chamam os ritmos) e deixar o corpo ir. Decodificar esses símbolos sonoros e dançar com eles, e não sobre eles, é algo que ainda me deixa tonta (eu tão acostumadinha a ensaiar, marcar, decorar).

Mais do que dança, flamenco é História, nos conta sobre antepassados ciganos que migraram de país a país tomando um instrumento aqui, um passo ali, um trejeito acolá. Até chegarem e se fortalecerem no sul da Espanha, onde ocorrem diversos eventos populares como a “Feria de Abril” em que todos desfilam exuberantes trajes, mulheres passam com seus abanicos, há muita música, dança, comida e bebida.

Mais do que dança, flamenco é atitude. Cabeça erguida, passos determinados, expressão, força e muita beleza. Quem dança não pode ter dúvidas, não pode intimidar-se, achar que não está bom o suficiente. O flamenco resgata valores femininos tão importantes, que chega a ser terapêutico. Ao sapatear expulsamos pequenos demônios cotidianos, inseguranças e rótulos sociais.

Mais do que tudo, flamenco é democrático. São mulheres de diferentes formações, idades, corpos. E todo mundo pode. Todo mundo encontra seu jeito de dançar, de se relacionar com a arte, com a História, com a música e consigo mesma.

Quem quiser assistir minha turma, nos apresentamos em Florianópolis dia 1º de dezembro, às 20:30h, no TAC.

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12/10/2016 – De marré decí

Eu nem tinha TV no quarto. Computadores e celulares não existiam. Meu desejo em um aniversário era a boneca que batia palmas e cantava “Parabéns a você”, movida à pilha. Meus pais regularam contas e eu ganhei.

Eu juntava tocos de madeira, sobras do piso da casa, e construía castelos. De retalhos fazia roupinhas para as bonecas. Com um pedaço de lona preta fiz uma cabana presa nos abacateiros do terreno ao lado. Lá, passava as tardes. Vivia suja de barro.

Meus cadernos eram comprados em lojas de atacado, encapados com papel de presente da loja da mãe ou papel contact colorido. Não tinham capa dura nem personagens de desenho animado. A caneta era bic, normalzinha, não fazia parte de um kit comprado em papelaria.

Picava folhas e pétalas, criava comidinhas. Mas não eram de comer, eram de brincar. No lanche da tarde tinha goiaba vermelha, ou ameixa roubada da vizinha. Uma vez o vô cozinhou mingau de maisena, numa panelinha bem velha.

Na varanda a rede amarela virava navio naufragando em alto-mar. A bola de vôlei furada era ainda boa de jogar, e fazíamos do portão de casa a nossa rede. Dois pra cada lado. Um time dentro do terreno e o outro na calçada.

Nunca ia à cabeleireira. Quem aparava minhas pontas e franja era a tia Nena. Ela também fez uma fantasia de carnaval, realizando meu sonho de ser bailarina por uma tarde. Me pediu pra calçar as sapatilhas brancas, passou cola e jogou glitter roxo, combinando com a saia de tule.

Os brinquedos quebrados e velhos, esquecidos, foram parar numa caixa de papelão que iria para o lixo, segundo minha mãe. Mas ela levou a caixa pra casa da vó, onde ganhou mais objetos: potes de sorvete, tampas, enfim, cacarecos sem utilidade. Num domingo fomos almoçar lá. Eu e meu irmão sentamos no chão da garagem, viramos a caixa, e brincamos por horas e horas com aquele monte de brinquedos que tinham magicamente se transformado em novidade.

Tive uma infância regada à riqueza que, hoje, ostento sem pudor.

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10/08/2016 – Falando em pinto pequeno…

Pinto nas Beltranas

Meu texto da semana passada aqui nas Beltranas rendeu muita conversa. Não pelo assunto principal, que era a irritação causada pelos sons de carro em extremo volume. Aliás, nisso, todo mundo concordou que odeia. Ninguém veio defender, ou apresentar um porquê razoável. Talvez não há.

O que mais chamou a atenção no texto foi a relação que estabeleci com a falta de autoafirmação de um indivíduo e o tamanho de seu órgão genital, inversamente proporcional. No caso dos homens, claro. Porque com as meninas não há esse tabu cruel (pelo menos desse, escapamos!).

 

Pinto de mulher

Um colega das Letras garantiu que vai usar minha explicação em sala de aula, quando questionou-me: “Ontem, por exemplo, parei no sinal vermelho, e a garota do carro ao lado escutava um funk a todo volume… Como classificá-la, amiga?” Minha resposta foi: No caso, o “pinto pequeno” é, metaforicamente, qualquer forma de ausência de afirmação, é aquilo que a pessoa tem mal resolvido. Então, a expressão pode ser aplicada a qualquer gênero: “isso é pinto-pequenez!”

É bom ser provocada por exemplares inteligentes de macho. Antes da minha definição quase “professor-pascoaleana” (ando bem neologista) tentei buscar alguma expressão do universo exclusivo feminino comparada ao “pinto pequeno”. Não achei! Não tem celulite, bunda caída, pança, cabelo ressecado ou perna fina que dê conta dessa “ofensa” para os homens.

 

Pinto escultural

Aí me pus a pensar de onde veio isso, e claro que daria uma tese. Quando foi estabelecida essa relação de poder, de força, de masculinidade, com o tamanho do piu-piu? Porque, lembrando das perfeitas esculturas gregas representando grandes líderes e guerreiros, nos corpos nus quase não se vê o dito cujo. É simbólico, só pra dizer que tem. Um pintinho infantil.

Dando uma voltinha pelo Google, achei algumas explicações (até de que na Grécia fazia muito frio, hehe!) e a mais interessante consta que os gregos tinham um ideal de beleza masculina em que o pênis demasiado grande não se enquadrava. Gostavam de corpos atléticos, com torsos e pernas musculosos, não perturbados por volumes exagerados. Não tinham qualquer problema em relação à nudez e o fato de aceitarem ser representados com pequenas partes pendentes era visto como maturidade intelectual. Em outras palavras: tamanho não era documento!

 

Pinto artístico

Sobre o assunto, em abril deste ano ocorreu um polêmico caso envolvendo uma tela da artista americana Illma Gore em que o empresário Donald Trump é retratado com um pinto pequeno. Apoiadores do candidato republicano à presidência dos EUA agrediram a moça na rua, em Los Angeles.

A artista contou que retratou o corpo de um amigo e ao colocar o rosto do empresário quis levantar questões sobre interpretação de gênero: “Se eu tivesse pintado Trump com um pênis grande, por que tomaríamos isso como um sinal de poder? Por que encaramos um pênis pequeno como algo que efemina? E o que haveria de errado em ser efeminado?”. O próprio retratado ficou incomodado, a ponto de defender o tamanho de seu pênis durante um debate. Aliás, assunto relevante para um debate presidencial, hã?

 

Pinto final

Não só como símbolo de poder e força, o tamanho do órgão masculino significa (na ingenuidade deles) qualidade e potência sexual. Garotos, não subestimem as outras extremidades do corpinho!! Lembrem-se (e acredito que não seja lenda): menina com menina se divertem bastante!

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03/08/2016 – Muito barulho por nada

Final de tarde, domingo. Fila pra entrar em Florianópolis, depois de uma semana no Rio Grande do Sul. Dia lindo, friozinho, céu azul.

Surge então uma nave, uma caminhonete gigante, branca, nunca tinha visto. Larga de ocupar a via inteira. Dela, emanavam todos os decibéis do mundo tocando um sertanejo gritado, como a maioria é. Sério. Era muuuuuito alto. Bom, todo mundo já presenciou algo parecido: seja uma galera ao redor de um capô aberto no posto de gasolina ou um motorista de vidro aberto (claro!) com o som do carro estourando os tímpanos.

Várias questões, carregadas de meu preconceito, me vêm à tona. Primeiro: a petulância desses fulanos em achar que todo mundo quer ouvir aquilo, naquele volume. Segundo: por quê ninguém toca Lenine ou Maria Rita no carro, com volume no máximo e vidros abertos? Terceiro: esse motorista não deve achar mesmo que pode estar incomodando alguém, seja um idoso, bebê dormindo, ou pessoa com dor de cabeça. Quarto: mesmo que achar, não se importa. Quinto e último: é uma atitude de autoafirmação, claro. Bem provável que tenha pinto pequeno.

Então, leitor, motorista que gosta de causar: saiba que a gente te atura mas sabe da verdade!

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11/05/2016 – A entrada é franca, mas não de graça

– Bom dia, pessoal!!! Sejam bem-vindos ao III Circuito de Contadores de Histórias de Jaraguá do Sul!

Assim iniciei minha fala ao apresentar os espetáculos às crianças no evento, mês passado.

– Alguém aqui pagou ingresso?

– Nãããão!

– Ué! Mas quando vocês vão ao cinema, vão entrando, assim?

– Não!! Tem que pagar ingresso…

– E a pipoca?

– Tem que pagar…

– E pro dentista consertar o dente que dói?

– Tem que pagar…

Assim começava o papo didático sobre o mercado das artes, mostrando que o artista, como qualquer trabalhador, atua em troca de dinheiro.

– Bom, se vocês não pagaram ingresso e os artistas que vão se apresentar ganham pra isso, alguém está pagando pra vocês, certo?

Silêncio. Dúvida. Seria o Papai Noel? Ou o duende da floresta?

Assim expliquei aos pequenos que o evento era realizado através um projeto enviado por uma produtora (a Cia Sandra Baron) ao Ministério da Cultura e que o dinheiro para trazer diversos grupos artísticos para a cidade, vinha de Brasília, do governo. Sendo assim, era o governo que estava proporcionando que todos assistissem sem precisar pagar.

Percebo no meu dia-a-dia de artista que esta aulinha não foi dada a muitos adultos. Pessoas que ainda acham que o artista é aquele ser humano feliz por fazer o que gosta e vive de vento. Pessoas que assistem a um espetáculo do Bq(en cena) – projeto realizado pela Prisma Cultural via lei de incentivo – pagando ingresso de 5 reais e fazendo a conta: número de presentes vezes cinco, dividido por seis artistas é igual a uma rodada de pizza. O que dizer então dos incríveis espetáculos do Sesc, que circulam o país inteiro, e todo mundo assiste “de graça”?

Não é de graça. A entrada é franca, porque alguém está pagando pra você. Algum governo, alguma instituição ou alguma empresa.

No mês que vem acontece a oitava edição da Feira do Livro de Brusque, que organizo desde 2009. Toda a programação artística tem entrada franca e o projeto custa 17 mil reais, disponibilizados pelo Fundo Municipal de Cultura, ou seja, pela Prefeitura de Brusque. Porque é assim que se faz cultura, da maneira justa para os cidadãos e para os artistas, que não participam para “divulgar o seu trabalho” ou pelo “amor à literatura”. Isso é outra coisa, é voluntariado, e cabe em diversas situações, mas não em um projeto de política cultural.

– Hummm, então é o governo que dá isso pra gente? Que legal!

E agora, a segunda parte da aulinha: não é presente, é obrigação. Está previsto na Constituição o direito à cultura. Governos atuam em diversas áreas, cumprem leis (ou devem cumprir), e nós, cidadãos, temos que cobrar, temos que criar demanda, exigir nosso direito. Já quando falamos de empresas privadas, trata-se de publicidade e responsabilidade social, quesitos supervalorizados nas empresas europeias, que já preveem nos seus orçamentos anuais o investimento em arte. Sim, investimento. Não é “ajuda”.

Então, quando você é plateia de algum projeto cultural e não paga entrada, está exercendo seu direito. E quando você, que pretende contratar um músico para seu evento, ou quer uma peça na sua empresa, ou uma apresentação na sua escola, contata diretamente o artista, lembre-se: ele vai cobrar!

– Tenham todos um ótimo espetáculo!

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20/04/2016 – Narrativas de linha e agulha

Recentemente, elaborando um novo repertório de contos para apresentar, deparei-me com a questão que sempre envolve criação de roteiros: como costurar um texto no outro? Já fiz com música, já fiz com dança e projeção de imagens, mas nunca com o óbvio, como sugere o termo: linha e agulha! Então aprofundei a pesquisa, para buscar o que há em comum entre estas práticas, e me deparei com sensações da memória, tradições milenares e sutilezas próprias do universo feminino. Segue o texto que criei para a abertura do espetáculo “Ponto e Conto”:

Tecido, textura, texto. Palavras que têm a mesma origem. E não à toa.

Há muito em comum no ato de tecer um pano e de tecer uma história. Ambos se formam pela trama.

Linhas tramadas formam o tecido e suas combinações resultam em mais ou menos leveza, ou densidade, ou colorações. Uma história é construída tramando-se personagens, ações, ideias, que também têm esse fim.

O ato de tecer sempre esteve muito ligado ao ato de narrar e cantar histórias. Em várias civilizações, culturas e países, por séculos e séculos, formaram-se rodas em que a costura e o bordado aconteciam embalados por cânticos ou causos.

As duas atividades têm também, em comum, sua preservação feita pelo feminino. Enquanto os homens saíam para trabalhar fora, cabia às mulheres as atividades de linhas e agulhas e a da transmissão oral de lendas, conselhos, receitas e acalantos.

Nasci numa cidade de tradição têxtil, conhecida como o Berço da Fiação Catarinense. Após a colonização, teares importados da Europa alavancaram a economia do município. Lembro de visitar, na época de escola, as grandes fábricas de tecido, com seus cheiros fortes de algodão cru que viravam fios coloridos. Nas últimas décadas, os teares manuais deram lugar às máquinas, que também substituíram artesãos por botões.

Em casa, vó, tias e mãe, mantinham viva a tradição de se criar com linhas. Lãs trançadas por duas grandes agulhas criaram blusas e gorros para os invernos, e também a manta de batismo que envolveu meu irmão. Meus vestidos mais importantes ganham formas pelas mãos de minha tia e madrinha, como uma bênção. Toalhas de rosto e banho, sempre tiveram a barra bordada em ponto cruz, muitas vezes com o nome do proprietário, em letra cursiva, enfeitada de florzinhas. Das toalhas e trilhos de mesas aos panos de prato, muitos desenhos surgiram formados por centenas de x.

Essa prática ancestral e familiar me habita, e procura escapar por entre tantas ocupações diárias, reuniões, apresentações, aulas e outras atividades. Aprendi a usar a agulha quando criança ainda, ao fazer roupinhas para as bonecas com retalhos. Furei o dedo muitas vezes e a imagem do sangue brotando da pele seguida pelo sabor dele quando dissolvido na saliva, são uma viagem pela memória.

Gosto de tecer com palavras também. A criação de enredos, a possibilidade de novos percursos, o artesanato que é desenhar parágrafos, está vivo em meu fazer cotidiano. Poder usar a minha voz para garantir a eternidade de um conto milenar é a dádiva mais preciosa. Poder usar as mãos para guiar um fino metal comandante de uma linha, também. E faço isso como uma reverência a todas elas, minhas professoras, das quais herdei o gosto por tramar.

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30/03/2016 – Bar de homens

Jorge levantou-se, foi até o balcão do bar central da cidade e dirigiu a palavra ao proprietário que, ocupado em anotar pedidos, servir mesas e assar uma carne, gentilmente lhe deu atenção. Tem mulher vindo aqui agora é?

O bar nunca estabeleceu restrições ao acesso mas comumente fora frequentado só por homens. Nas rodas os assuntos variavam entre notícias recentes, opiniões sobre fatos e piadas. Comiam e bebiam cerveja gelada. Alguns estavam lá toda semana, religiosamente.

Elas são 12 amigas e elegeram justo este bar para volta e meia se encontrar. Comida bem feita e atendimento excelente são prioridade, então o local era perfeito. Nas rodas os assuntos variavam entre notícias recentes, opiniões sobre fatos e piadas. Comiam e bebiam cerveja gelada. Algumas estavam lá toda semana, religiosamente. E recebiam olhares deles, de absoluta reprovação. Olhares que diziam: este lugar não é pra vocês!

Elas não procuraram entender, relevaram os olhares, sentaram-se de posse de sua liberdade tão recentemente adquirida.

Mas Jorge estava indignado, incomodado. Não sabia lidar com isso e teve que se manifestar. O ano era 1866 e o local uma cidade do velho-oeste.

Não, não era. Essa história aconteceu na semana passada, em Brusque.

2 thoughts on “Publicações

  1. GILBERTO SADOWSKY diz:

    Querida Lieza Neves:

    Quero agradecer imensamente por você ter escolhido São Bento do Sul para as suas apresentações!!! Tenho certeza que para tudo existe um sentido grande e misterioso!!! Sua passagem por aqui cativou meu coração!!! Sou seu grande fã!!! Espero que ainda nossos destinos possam se cruzar e eu possa assistir suas belas apresentações cheias de poesia, encanto, inteligência e sentimento. Estava escrito nas estrelas que você passaria por São Bento e eu te conheceria e você tocaria meu coração!!! Até imprimi aquela poesia da menina, a gaiola e a bicicleta!!!

    grande abraço cheio de saudades!!!

    GILBERTO SADOWSKY

    • Lieza Neves diz:

      Poxa, Gilberto, eu é que fico feliz com esse retorno! Às vezes trabalhar com arte é tão desgastante, o processo é lento, enfim… Saber que as histórias e poemas que levei a São Bento cativaram alguém me dá a sensação de dever cumprido!! Até mais!!! Abraço!

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