Textos

Crônicas publicadas na página BELTRANAS do jornal Município Dia-a-Dia (Brusque/SC)

 

 

16/08/2017

Tens tempo!

Essa louca vida louca de artista-autônoma me faz ter uma rotina bem diferente da maioria das pessoas que eu conheço. Hoje posso dizer que me relaciono muito bem com o tempo. Ele tornou-se meu aliado e não um inimigo, como também relata a poetisa Viviane Mosé. E eis que muitas vezes, frente às situações que envolvem as formas de uso do tempo e que atravessam meu caminho, me deparo refletindo sobre o tema.

Comum é as pessoas me perguntarem “E aí? Muita correria?”. Perguntam esperando avidamente por uma resposta positiva, seguida de um suspiro. Nossa herança colonial nos obriga a estar sempre cansados, nos impõe a sensação de satisfação relacionada à quantidade de trabalho. Eu digo: “Não, não tô na correria não”. Meu ofício me traz prazer por ser o que é não pelo quanto me paga. Aquela história de trabalhar para viver e não o contrário, sabe?

Dia desses encontrei uma ex-colega que me contou ter saído da empresa onde trabalhava por 12 anos, tinha um cargo ótimo e um salário farto, e estava mudando de cidade, para fazer outra coisa, “qualquer coisa, cansei, tava gastando boa parte do salário em remédio, eu quero ser feliz”. E este não é um caso isolado. Vejo um movimento em direção a uma vida mais simples, sem tantos compromissos, com mais tempo.

Trabalhando em casa muitas vezes, me divido entre elaborar projetos, fazer tarefas domésticas, ensaiar, assistir a um documentário, decorar um texto, cozinhar, etc. Não tem expediente. No meio disso eu paro para gravar um vídeo que vai alegrar os amigos, faço casinha para as gatas, crio memes, faço montagem de fotos e escrevo cartões de aniversário. Na última Páscoa me vesti de coelho e gravei vídeos por seis dias com charadas para o meu afilhado adivinhar e assim ganhar sua cesta do domingo.

O que mais ouço? “Tens tempo, né?” Tenho. Temos. Democrático e preciso, igual para todos.

Dica da Lilica: Chegou a Brusque o Banco do Tempo, uma iniciativa que visa justamente utilizar as horas como moeda. Deem uma olhada, é muito legal!

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17/05/2017

Eu olho mesmo

Sabe quando a gente cruza o olho com alguém que tem algo que chama a atenção? Normalmente algo diferente da gente, ou do comum, da maioria. Então, aprendemos que ser educado é não olhar. Pega mal. Ficar encarando, analisando. Deixa o outro constrangido.

São posturas do mundo adulto. Porque criança, até a idade de alguém ter ensinado que “ficar olhando” e “apontar o dedo” é feio, olha sem pudor. Olha sem desviar o olhar. Podem experimentar. E se a gente mantém, mesmo sem fazer careta, dar tchauzinho, ela continua olhando.

Esse olhar é de investigação. Olhar de conhecer o outro. E perdemos isso com o tempo. Fazer isso com pessoas estranhas então, é proibido.

Muitas vezes andando nas ruas (e eu ando muito!) me pego lendo a figura de alguém que cruza meu caminho, ou que está sentado, ou me atendendo numa loja. E normalmente são as pessoas que menos devemos olhar. Por educação.

É errado olhar aquele que tem uma prótese na perna, ou a senhora de lenço no lugar de cabelo, ou a menina com uma tatuagem enorme na panturrilha, ou o homem que treme ao levar a xícara de café à boca. Também não devemos olhar para quem tem outra cor de pele, outro tipo de cabelo. A mãe que traz no carrinho uma síndrome, um acidente genético, um “por quê?”. Não devemos olhar cicatrizes e outras marcas na pele.

No meu ritmo acelerado, passo o olhar por segundos, ou frações de um, por estas pessoas. E pela boa educação, só olho mais quando não estão me vendo, “boto reparo” nessas pessoas que têm suas marcas da diferença.

Imagino que atrás de cada uma tem uma história. Um acidente, uma doença, um momento de ruptura. Uma repressão, uma vontade de ser visto. São todas dores. E elas aparecem, não são como as dores da alma, choradas em casa, disfarçadas de sorrisos diários. São sinais de dores, assinaturas de que ali naquele corpo ela já se alojou alguma vez.

Por isso eu olho. É meu jeito de reconhecer a humanidade, vendo pessoas e suas dores passando para lá e para cá, com seus olhares de fortaleza, de quem tem uma grande história para contar.

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10/05/2017

Presente no Dia das Mães

Mês de maio entrando e um filme estranho repassa na minha mente. Foi no ano passado, dia das mães, 8 de maio, que a minha sentiu a dor que a levaria para longe de nós em um mês.

Quando criança fiz uma maçã de papel guiada pela professora do jardim de infância e dançamos em homenagem a este dia. Outra vez encenamos um bolo, cada aluno era um ingrediente, e eu estava vestida de baunilha, para lhe arrancar aplausos emocionados. Como negar as lágrimas diante do filho pequeno fazendo gestos descoordenados num palco?

No ano passado eu trouxe presentes, ela estava no sofá, não deu muita atenção, agradeceu mas não quis ver com detalhes. Era a dor.

A dor dela passou a ser minha. E aumentou a cada dia, por um mês.

Desde então, diariamente, em algum momento, lembro dela. Da voz que cantava enquanto passava roupa, das mãos cuidadosas arrumando as orelhas de gato em cima da mesa, da textura do cabelo, do contorno das unhas que volta e meia eu arrumava e pintava. Sempre tem essa hora do dia. Passando o café, escovando os dentes ou fazendo nada, a lembrança vem. E assim que vem eu penso: Tá aí! O momento de hoje!

Eu não quis ter filhos e uma vez ela me disse que no meu lugar também não teria. Ironia pura, de alguém que tinha na maternidade sua maior vocação. Fico pensando o que ela seria se não tivesse sido mãe, no que poria tanta dedicação. No hospital uma enfermeira perguntou: a senhora também é avó? Ela me olhou, sorriu e disse: Não, e olha, se fosse eu hoje em dia também não teria filho. Se bem que agora tenho ela aqui, cuidando de mim.

Um mês de papeis invertidos. Passei a cuidar, dar banho, velar o sono. E enfim veio a despedida. Era eu que estava lá com ela. Só nós duas, uma testemunhando o nascer da outra para uma nova vida, como um dia já estivemos, num quarto de hospital.

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03/05/2017

Cabeça de pendrive

Eu gosto de pensar sobre memória. Como área de estudo, também como registro, a memória do que guardamos, informações, imagens, sons, cheiros, sonhos, até o mais intrigante déjà vu. Volta e meia analiso meu próprio mecanismo de memorização, me surpreendo com algumas capacidades e lamento a dificuldade com outras.

No caminho para Curitiba para passar o feriadão, meu irmão colocou no som do carro músicas de um pendrive, fez uma seleção anos 90/2000. Fomos e voltamos e nenhuma música se repetiu, o que me faz admirar a capacidade do pequeno dispositivo. Teve Spice Girls, Banda Eva, Ace of Base, Paralamas. E eu lá cantando tudo! Algumas músicas não ouvia há uns 20 anos e a letra vinha sem problemas, de cabo a rabo, com os “uuhuuu”, “aaahh” e as pausas. Lembrei até que o Pimpolho é um cara bem legal, gente!

Algo semelhante ocorreu esses dias em que assisti a uma missa, e mesmo depois de anos sem frequentar, lembrava de todas as respostas que tinha que dar, a cada oração do padre. Como lembro a música da propaganda da pizza com guaraná. E a da pipoca.

Me surpreende a coleção de memórias inúteis, aquilo que eu nem queria ter guardado e está lá, ocupando espaço. Eu sei nomes de personagens de novelas, o texto do comercial do Festival de Dança de Joinville de mil novecentos e bolinha, o jingle da Festa do Pinhão da mesma época, o Abecedário da Xuxa, os bordões dos Trapalhões, da Escolinha do Professor Raimundo e Sai de Baixo. Será que a memória da cabeça da gente tem limite? Assim, algumas informações estão ocupando o lugar de outras?

Porque, por outro lado, esqueço de datas, sequências históricas, e textos que um dia já tinha decorado e apresentei. Por que não escolhemos exatamente o que lembrar e o que deletar? Por que a cabeça da gente não poderia ser um grande pendrive, em que pudéssemos controlar o que entra, o que fica, o que é excluído?

Acho bonita a origem do termo “saber de cor”, que vem do francês “savoir par coeur”, ou seja, “saber pelo coração’. Porque para os antigos gregos o coração era a fonte da sabedoria, do conhecimento, não o cérebro. Me leva a concluir que guardo tanta tranqueira no coração, da Ragatanga ao tema de Tieta. O “pepino Califórnia, Califórnia babalu” também está lá.

Não dá pra formatar e perder tudo, nem selecionar o que enviar pra lixeira. Um arquivo não substitui outro em desuso. Vai-se somando informações. Aí dá pane, a gente esquece o nome do colega da escola, uma receita, um lugar visitado. Eita maquininha complicada, ainda em fase de testes.

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15/03/2017

Mimimi de mulherzinha

Não tinha vivido um 8 de março como este último. Pela primeira vez vi, além de rosas vermelhas e recadinhos de parabéns, muito debate e reuniões de coletivos tomando espaços. Afinal, a data surgiu disto, de um momento histórico e com o objetivo simples de se tornar um marco da luta pela igualdade de direitos.

Em Brusque houve um movimento na praça, com cobertura da imprensa, dando voz aos anseios do grupo representante. Aí nos comentários de uma das publicações leio aquela enxurrada de absurdos, comentários machistas escondidos atrás de um perfil de rede social. Um menino de 15 anos mandando o grupo ir lavar louça. Sim, teve isso. Isso ainda é dito para tentar minimizar a reivindicação alheia. Aprendeu com o pai? Ou com a mãe? E qual o problema em lavar louça? Ou lavar roupa? Ou lavar o carro? Xuxu: errado é lavar dinheiro!

Outro sujeito escreveu “se querem igualdade porque não vão lutar para servir o exército como nós? Ahhh, aí não querem!!” Claro que não. Um ano simulando guerra, com humilhações dos superiores e recebendo um conteúdo que não acrescenta (um ano de estudos sobre ética e cidadania seria muito mais proveitoso), ninguém quer. E se os homens também cumprem por obrigação e não gostam – visto o tipo de comentário acima – deveriam tomar o exemplo das mulheres e se reunir em coletivos para mudar a situação. Não querem que até isso seja colocado em nossa pauta, já bem extensa, né?

E por quê frente aos movimentos feministas surgem os homens combatendo, xingando, sendo contra? Não entenderam o propósito ou não querem mesmo que os salários sejam iguais e que a violência diminua?

No primeiro caso, o que sobra é ignorância, e isso tem tratamento. Já no segundo, só posso crer que este perfil de homem esteja morrendo de medo, de perder cargo, posição, voz, direitos, vantagens, respeito, dinheiro. Poxa, medo de nós? Que nem estamos lutando contra eles? Hummm… tá me parecendo mimimi.

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01/02/2017

Fotografia de um instante

Dia desses, andando pelo centro de Brusque, tinha que fazer hora, esperando meu namorado que estava no dentista. Resolvi gastar este tempo em meio aos livros e entrei na livraria. Entre as prateleiras, com um exemplar aberto nas mãos, olhos fixos na página, estava o dono do estabelecimento, que compartilha com ele o seu sobrenome. Eu o cumprimentei e ele sussurrou: Ihh, se a patroa me vê lendo, dá bronca! – referindo-se à esposa atrás do balcão.

O dono da livraria ama fotografia e já viajou para muitos lugares em busca dos melhores cenários e ângulos. Algumas fotos estão impressas em tamanho muito grande no andar de cima, outras estão emolduradas. Mas, ele viaja também através dos escritos e comentou uma angústia que partilho: a de ter tantos livros na fila da leitura. Parece que não vai dar tempo nessa vida de ler tudo!

Ali de pé, com a prateleira baixa nos separando, nós dois trocamos impressões e pequenas histórias de autores e enredos. São essas coisas que aproximam as pessoas. Ele me falou de “Sapiens – uma breve história da humanidade” e do recém lançado, do mesmo Yuval Noah Harari, “Homo Deus”. Mais dois pra minha fila.

Até que comentei que havia iniciado a leitura de um romance, livro que recebi de presente de aniversário do meu tio e padrinho, em maio passado e que só agora encarei a saga das mais de 800 páginas. O autor é o alemão Thomas Mann e o nome do livro é Budden…

– Buddenbrooks! Tenho aqui.

E me conduziu a outra prateleira onde estava a edição mais recente do clássico que deu a seu autor o Prêmio Nobel de Literatura.

– Espera um minuto. Vais ter uma surpresa!

Ele se afastou, foi até o escritório e, em menos de um minuto, voltava com uma preciosidade nas mãos, e que só pude ver e tocar por causa do acaso da conversa. Era uma edição de 1942 do livro que estou lendo, com capa de tecido, páginas amareladas e manchadas. Fiquei boquiaberta, passando a mão pelo objeto, me certificando que ele era de verdade. Não sei se me impressionou mais a existência do exemplar (e pensei: é um clássico mesmo, faz 75 anos e ainda é editado) ou a coincidência de ter entrado na livraria, do encontro e de ter falado sobre este livro com quem justamente o tinha há anos, numa versão antiga.

Saí de lá caminhando leve, com esperança nas pessoas e suas histórias, que são as matérias de ofício de pessoas como nós, assim sortudas.

P.S. exclusivo à esposa do dono da livraria: A parte que escrevi que ele lê escondido é ficção, inventei. Ele não lê não.

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11/01/2017

Perceberam que a rainha estava nua

Em 2013 estive no Rio e assisti uma fala da escritora Adriana Falcão, numa sala com pouco mais de 20 pessoas. Ela falou abertamente sobre o desafio de ser roteirista de TV e de ter de escrever sob pressão ou sobre algo que não acreditava, por estar entre os interesses da empresa e sua arte. Não foi fácil ser criativa depois de tantos anos no ar com a Grande Família, com temporadas já encerradas e, a pedido da emissora, esticadas para mais um ou dois anos.

Adriana falou que a Globo estava mudando com relação ao tipo de roteiros, formatos de programas e conteúdos. Já se via, pois no ar estavam chegando com força total as novelas das 23 horas, com seus enredos mais elaborados, suas tramas mais amarradas e sem tanto apelo comercial e popular como as demais novelas. O público das séries americanas estava crescendo e exigindo histórias mais dinâmicas.

Não assisto TV, então o que acompanho é via Internet, e foi na rede que assisti a diversos vídeos do programa Zorra Total feitos recentemente. Ali, muita coisa mudou! Elenco mais afiado, formatos batidos de piadas jogados no lixo e humor com crítica e textos inteligentes.

Agora, o que nos surpreende (e está causando polêmica nas redes sociais) é a vinheta do Carnaval da Globo 2017. A Globeleza está vestida! Muita gente criticando, mas muita gente adorando, principalmente as mulheres, principalmente as mulheres negras. Há anos atacam o vídeo pela objetificação do corpo da mulher que nessa época do ano ganha destaque. E parece que a emissora concordou.

Acho significativo, mais até pelo “o quê” ela está vestindo. A nova vinheta é multicultural. Traz fantasias e danças dos carnavais de diversas partes do Brasil, não só do Rio como ocorria desde 1991, ano em que a Globeleza estreou. Tem frevo, maracatu, axé. Tem mais cores, tem mais diversão.

Obs.: O título do artigo refere-se ao excelente conto “A roupa nova do Rei” de Hans Christian Andersen. Pra quem não conhece (ou não lembra da infância), sugiro!

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23/11/2016

A história de um telefone sem fio

Nós somos duas e somos oito. Eu, Pati, um telefone, roupas, perucas, chupeta, uma coroa de flores, um rádio, um bebê.

Monólogos e diálogos que contam o mesmo fato sob a perspectiva e versão de cada personagem compõem o texto da peça “Telefone sem Fio”, criado e encenado pela primeira vez em 1997, no palco do Centro Evangélico.

Desde então nos apresentamos em diversos locais, cidades, instituições, pois a montagem acaba abordando um tema cotidiano, nas relações pessoais e em ambientes de trabalho: problemas causados pela má comunicação. Tudo regado a muita comédia. A plateia se identifica de uma forma muito natural, pela história e pela empatia com as personagens. Ouvimos muitas vezes, após as apresentações: “A Dona Dulce parece uma vizinha minha” ou “Conheço alguém como a Wal”.

Texto e atuação de duas brusquenses, com personagens típicos da cidade, sotaques e expressões da fala, fazem do “Telefone sem Fio” um recorte da cultura local, sob um olhar irônico e caricato, que dispensa explicações ou releituras. A peça abusa da comédia sem apelar para estereótipos ou palavrões. A risada surge por causa da trama, das atuações, do texto, simplesmente.

E nós rimos junto, sempre. Uma da outra, durante ensaios e montagem do cenário, e nos poucos segundos de bastidores nas trocas de personagens, enquanto a outra sozinha em cena solta alguma frase engraçada.

São quase vinte anos de parceria nesse e em outros trabalhos, que fluem com leveza e conexão graças à amizade e sintonia incríveis que existem entre eu e a Pati. E entre a Wal, a Dona Dulce, o Max, o Seu Osmar, a Salete, a Gise, a Camila e a Taís.

A peça “Telefone sem Fio” será apresentada neste domingo, dia 27, no Teatro de Azambuja. Serão duas sessões: às 18h e às 20h. Ingressos a R$ 30,00 (antecipados na Livraria Saber – shopping Gracher).

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16/11/2016

 ¡Olé! 

Nesses dois anos de estudo de dança flamenca muitas vezes me peguei refletindo e analisando todo o conjunto de saberes, interpretações, ritmos, cores e personalidades que envolvem essa arte tão antiga. E como tudo que experimentamos e gostamos temos vontade de dividir com as pessoas, estou ensaiando um texto sobre o assunto há meses. Aí dou de cara com um conto da Clarice, chamado “Espanha”.  Claro, bate aquele impulso de não escrever mais nada, nunca mais.

Mas Clarice não dançava, então posso redigir algo do ponto de vista da cena (o que alguém já deve ter feito lindamente, e nem procurei, pra não desistir de vez).

Mais do que dança, flamenco é arte da escuta, de apurar os ouvidos para as batidas de cada palo (assim se chamam os ritmos) e deixar o corpo ir. Decodificar esses símbolos sonoros e dançar com eles, e não sobre eles, é algo que ainda me deixa tonta (eu tão acostumadinha a ensaiar, marcar, decorar).

Mais do que dança, flamenco é História, nos conta sobre antepassados ciganos que migraram de país a país tomando um instrumento aqui, um passo ali, um trejeito acolá. Até chegarem e se fortalecerem no sul da Espanha, onde ocorrem diversos eventos populares como a “Feria de Abril” em que todos desfilam exuberantes trajes, mulheres passam com seus abanicos, há muita música, dança, comida e bebida.

Mais do que dança, flamenco é atitude. Cabeça erguida, passos determinados, expressão, força e muita beleza. Quem dança não pode ter dúvidas, não pode intimidar-se, achar que não está bom o suficiente. O flamenco resgata valores femininos tão importantes, que chega a ser terapêutico. Ao sapatear expulsamos pequenos demônios cotidianos, inseguranças e rótulos sociais.

Mais do que tudo, flamenco é democrático. São mulheres de diferentes formações, idades, corpos. E todo mundo pode. Todo mundo encontra seu jeito de dançar, de se relacionar com a arte, com a História, com a música e consigo mesma.

Quem quiser assistir minha turma, nos apresentamos em Florianópolis dia 1º de dezembro, às 20:30h, no TAC.

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12/10/2016

De marré decí

Eu nem tinha TV no quarto. Computadores e celulares não existiam. Meu desejo em um aniversário era a boneca que batia palmas e cantava “Parabéns a você”, movida à pilha. Meus pais regularam contas e eu ganhei.

Eu juntava tocos de madeira, sobras do piso da casa, e construía castelos. De retalhos fazia roupinhas para as bonecas. Com um pedaço de lona preta fiz uma cabana presa nos abacateiros do terreno ao lado. Lá, passava as tardes. Vivia suja de barro.

Meus cadernos eram comprados em lojas de atacado, encapados com papel de presente da loja da mãe ou papel contact colorido. Não tinham capa dura nem personagens de desenho animado. A caneta era bic, normalzinha, não fazia parte de um kit comprado em papelaria.

Picava folhas e pétalas, criava comidinhas. Mas não eram de comer, eram de brincar. No lanche da tarde tinha goiaba vermelha, ou ameixa roubada da vizinha. Uma vez o vô cozinhou mingau de maisena, numa panelinha bem velha.

Na varanda a rede amarela virava navio naufragando em alto-mar. A bola de vôlei furada era ainda boa de jogar, e fazíamos do portão de casa a nossa rede. Dois pra cada lado. Um time dentro do terreno e o outro na calçada.

Nunca ia à cabeleireira. Quem aparava minhas pontas e franja era a tia Nena. Ela também fez uma fantasia de carnaval, realizando meu sonho de ser bailarina por uma tarde. Me pediu pra calçar as sapatilhas brancas, passou cola e jogou glitter roxo, combinando com a saia de tule.

Os brinquedos quebrados e velhos, esquecidos, foram parar numa caixa de papelão que iria para o lixo, segundo minha mãe. Mas ela levou a caixa pra casa da vó, onde ganhou mais objetos: potes de sorvete, tampas, enfim, cacarecos sem utilidade. Num domingo fomos almoçar lá. Eu e meu irmão sentamos no chão da garagem, viramos a caixa, e brincamos por horas e horas com aquele monte de brinquedos que tinham magicamente se transformado em novidade.

Tive uma infância regada à riqueza que, hoje, ostento sem pudor.

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10/08/2016

Falando em pinto pequeno…

 

Pinto nas Beltranas

Meu texto da semana passada aqui nas Beltranas rendeu muita conversa. Não pelo assunto principal, que era a irritação causada pelos sons de carro em extremo volume. Aliás, nisso, todo mundo concordou que odeia. Ninguém veio defender, ou apresentar um porquê razoável. Talvez não há.

O que mais chamou a atenção no texto foi a relação que estabeleci com a falta de autoafirmação de um indivíduo e o tamanho de seu órgão genital, inversamente proporcional. No caso dos homens, claro. Porque com as meninas não há esse tabu cruel (pelo menos desse, escapamos!).

 

Pinto de mulher

Um colega das Letras garantiu que vai usar minha explicação em sala de aula, quando questionou-me: “Ontem, por exemplo, parei no sinal vermelho, e a garota do carro ao lado escutava um funk a todo volume… Como classificá-la, amiga?” Minha resposta foi: No caso, o “pinto pequeno” é, metaforicamente, qualquer forma de ausência de afirmação, é aquilo que a pessoa tem mal resolvido. Então, a expressão pode ser aplicada a qualquer gênero: “isso é pinto-pequenez!”

É bom ser provocada por exemplares inteligentes de macho. Antes da minha definição quase “professor-pascoaleana” (ando bem neologista) tentei buscar alguma expressão do universo exclusivo feminino comparada ao “pinto pequeno”. Não achei! Não tem celulite, bunda caída, pança, cabelo ressecado ou perna fina que dê conta dessa “ofensa” para os homens.

 

Pinto escultural

Aí me pus a pensar de onde veio isso, e claro que daria uma tese. Quando foi estabelecida essa relação de poder, de força, de masculinidade, com o tamanho do piu-piu? Porque, lembrando das perfeitas esculturas gregas representando grandes líderes e guerreiros, nos corpos nus quase não se vê o dito cujo. É simbólico, só pra dizer que tem. Um pintinho infantil.

Dando uma voltinha pelo Google, achei algumas explicações (até de que na Grécia fazia muito frio, hehe!) e a mais interessante consta que os gregos tinham um ideal de beleza masculina em que o pênis demasiado grande não se enquadrava. Gostavam de corpos atléticos, com torsos e pernas musculosos, não perturbados por volumes exagerados. Não tinham qualquer problema em relação à nudez e o fato de aceitarem ser representados com pequenas partes pendentes era visto como maturidade intelectual. Em outras palavras: tamanho não era documento!

 

Pinto artístico

Sobre o assunto, em abril deste ano ocorreu um polêmico caso envolvendo uma tela da artista americana Illma Gore em que o empresário Donald Trump é retratado com um pinto pequeno. Apoiadores do candidato republicano à presidência dos EUA agrediram a moça na rua, em Los Angeles.

A artista contou que retratou o corpo de um amigo e ao colocar o rosto do empresário quis levantar questões sobre interpretação de gênero: “Se eu tivesse pintado Trump com um pênis grande, por que tomaríamos isso como um sinal de poder? Por que encaramos um pênis pequeno como algo que efemina? E o que haveria de errado em ser efeminado?”. O próprio retratado ficou incomodado, a ponto de defender o tamanho de seu pênis durante um debate. Aliás, assunto relevante para um debate presidencial, hã?

 

Pinto final

Não só como símbolo de poder e força, o tamanho do órgão masculino significa (na ingenuidade deles) qualidade e potência sexual. Garotos, não subestimem as outras extremidades do corpinho!! Lembrem-se (e acredito que não seja lenda): menina com menina se divertem bastante!

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03/08/2016

Muito barulho por nada

Final de tarde, domingo. Fila pra entrar em Florianópolis, depois de uma semana no Rio Grande do Sul. Dia lindo, friozinho, céu azul.

Surge então uma nave, uma caminhonete gigante, branca, nunca tinha visto. Larga de ocupar a via inteira. Dela, emanavam todos os decibéis do mundo tocando um sertanejo gritado, como a maioria é. Sério. Era muuuuuito alto. Bom, todo mundo já presenciou algo parecido: seja uma galera ao redor de um capô aberto no posto de gasolina ou um motorista de vidro aberto (claro!) com o som do carro estourando os tímpanos.

Várias questões, carregadas de meu preconceito, me vêm à tona. Primeiro: a petulância desses fulanos em achar que todo mundo quer ouvir aquilo, naquele volume. Segundo: por quê ninguém toca Lenine ou Maria Rita no carro, com volume no máximo e vidros abertos? Terceiro: esse motorista não deve achar mesmo que pode estar incomodando alguém, seja um idoso, bebê dormindo, ou pessoa com dor de cabeça. Quarto: mesmo que achar, não se importa. Quinto e último: é uma atitude de autoafirmação, claro. Bem provável que tenha pinto pequeno.

Então, leitor, motorista que gosta de causar: saiba que a gente te atura mas sabe da verdade!

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11/05/2016

A entrada é franca, mas não de graça

– Bom dia, pessoal!!! Sejam bem-vindos ao III Circuito de Contadores de Histórias de Jaraguá do Sul!

Assim iniciei minha fala ao apresentar os espetáculos às crianças no evento, mês passado.

– Alguém aqui pagou ingresso?

– Nãããão!

– Ué! Mas quando vocês vão ao cinema, vão entrando, assim?

– Não!! Tem que pagar ingresso…

– E a pipoca?

– Tem que pagar…

– E pro dentista consertar o dente que dói?

– Tem que pagar…

Assim começava o papo didático sobre o mercado das artes, mostrando que o artista, como qualquer trabalhador, atua em troca de dinheiro.

– Bom, se vocês não pagaram ingresso e os artistas que vão se apresentar ganham pra isso, alguém está pagando pra vocês, certo?

Silêncio. Dúvida. Seria o Papai Noel? Ou o duende da floresta?

Assim expliquei aos pequenos que o evento era realizado através um projeto enviado por uma produtora (a Cia Sandra Baron) ao Ministério da Cultura e que o dinheiro para trazer diversos grupos artísticos para a cidade, vinha de Brasília, do governo. Sendo assim, era o governo que estava proporcionando que todos assistissem sem precisar pagar.

Percebo no meu dia-a-dia de artista que esta aulinha não foi dada a muitos adultos. Pessoas que ainda acham que o artista é aquele ser humano feliz por fazer o que gosta e vive de vento. Pessoas que assistem a um espetáculo do Bq(en cena) – projeto realizado pela Prisma Cultural via lei de incentivo – pagando ingresso de 5 reais e fazendo a conta: número de presentes vezes cinco, dividido por seis artistas é igual a uma rodada de pizza. O que dizer então dos incríveis espetáculos do Sesc, que circulam o país inteiro, e todo mundo assiste “de graça”?

Não é de graça. A entrada é franca, porque alguém está pagando pra você. Algum governo, alguma instituição ou alguma empresa.

No mês que vem acontece a oitava edição da Feira do Livro de Brusque, que organizo desde 2009. Toda a programação artística tem entrada franca e o projeto custa 17 mil reais, disponibilizados pelo Fundo Municipal de Cultura, ou seja, pela Prefeitura de Brusque. Porque é assim que se faz cultura, da maneira justa para os cidadãos e para os artistas, que não participam para “divulgar o seu trabalho” ou pelo “amor à literatura”. Isso é outra coisa, é voluntariado, e cabe em diversas situações, mas não em um projeto de política cultural.

– Hummm, então é o governo que dá isso pra gente? Que legal!

E agora, a segunda parte da aulinha: não é presente, é obrigação. Está previsto na Constituição o direito à cultura. Governos atuam em diversas áreas, cumprem leis (ou devem cumprir), e nós, cidadãos, temos que cobrar, temos que criar demanda, exigir nosso direito. Já quando falamos de empresas privadas, trata-se de publicidade e responsabilidade social, quesitos supervalorizados nas empresas europeias, que já preveem nos seus orçamentos anuais o investimento em arte. Sim, investimento. Não é “ajuda”.

Então, quando você é plateia de algum projeto cultural e não paga entrada, está exercendo seu direito. E quando você, que pretende contratar um músico para seu evento, ou quer uma peça na sua empresa, ou uma apresentação na sua escola, contata diretamente o artista, lembre-se: ele vai cobrar!

– Tenham todos um ótimo espetáculo!

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20/04/2016

Narrativas de linha e agulha

Recentemente, elaborando um novo repertório de contos para apresentar, deparei-me com a questão que sempre envolve criação de roteiros: como costurar um texto no outro? Já fiz com música, já fiz com dança e projeção de imagens, mas nunca com o óbvio, como sugere o termo: linha e agulha! Então aprofundei a pesquisa, para buscar o que há em comum entre estas práticas, e me deparei com sensações da memória, tradições milenares e sutilezas próprias do universo feminino. Segue o texto que criei para a abertura do espetáculo “Ponto e Conto”:

Tecido, textura, texto. Palavras que têm a mesma origem. E não à toa.

Há muito em comum no ato de tecer um pano e de tecer uma história. Ambos se formam pela trama.

Linhas tramadas formam o tecido e suas combinações resultam em mais ou menos leveza, ou densidade, ou colorações. Uma história é construída tramando-se personagens, ações, ideias, que também têm esse fim.

O ato de tecer sempre esteve muito ligado ao ato de narrar e cantar histórias. Em várias civilizações, culturas e países, por séculos e séculos, formaram-se rodas em que a costura e o bordado aconteciam embalados por cânticos ou causos.

As duas atividades têm também, em comum, sua preservação feita pelo feminino. Enquanto os homens saíam para trabalhar fora, cabia às mulheres as atividades de linhas e agulhas e a da transmissão oral de lendas, conselhos, receitas e acalantos.

Nasci numa cidade de tradição têxtil, conhecida como o Berço da Fiação Catarinense. Após a colonização, teares importados da Europa alavancaram a economia do município. Lembro de visitar, na época de escola, as grandes fábricas de tecido, com seus cheiros fortes de algodão cru que viravam fios coloridos. Nas últimas décadas, os teares manuais deram lugar às máquinas, que também substituíram artesãos por botões.

Em casa, vó, tias e mãe, mantinham viva a tradição de se criar com linhas. Lãs trançadas por duas grandes agulhas criaram blusas e gorros para os invernos, e também a manta de batismo que envolveu meu irmão. Meus vestidos mais importantes ganham formas pelas mãos de minha tia e madrinha, como uma bênção. Toalhas de rosto e banho, sempre tiveram a barra bordada em ponto cruz, muitas vezes com o nome do proprietário, em letra cursiva, enfeitada de florzinhas. Das toalhas e trilhos de mesas aos panos de prato, muitos desenhos surgiram formados por centenas de x.

Essa prática ancestral e familiar me habita, e procura escapar por entre tantas ocupações diárias, reuniões, apresentações, aulas e outras atividades. Aprendi a usar a agulha quando criança ainda, ao fazer roupinhas para as bonecas com retalhos. Furei o dedo muitas vezes e a imagem do sangue brotando da pele seguida pelo sabor dele quando dissolvido na saliva, são uma viagem pela memória.

Gosto de tecer com palavras também. A criação de enredos, a possibilidade de novos percursos, o artesanato que é desenhar parágrafos, está vivo em meu fazer cotidiano. Poder usar a minha voz para garantir a eternidade de um conto milenar é a dádiva mais preciosa. Poder usar as mãos para guiar um fino metal comandante de uma linha, também. E faço isso como uma reverência a todas elas, minhas professoras, das quais herdei o gosto por tramar.

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30/03/2016

Bar de homens

Jorge levantou-se, foi até o balcão do bar central da cidade e dirigiu a palavra ao proprietário que, ocupado em anotar pedidos, servir mesas e assar uma carne, gentilmente lhe deu atenção. Tem mulher vindo aqui agora é?

O bar nunca estabeleceu restrições ao acesso mas comumente fora frequentado só por homens. Nas rodas os assuntos variavam entre notícias recentes, opiniões sobre fatos e piadas. Comiam e bebiam cerveja gelada. Alguns estavam lá toda semana, religiosamente.

Elas são 12 amigas e elegeram justo este bar para volta e meia se encontrar. Comida bem feita e atendimento excelente são prioridade, então o local era perfeito. Nas rodas os assuntos variavam entre notícias recentes, opiniões sobre fatos e piadas. Comiam e bebiam cerveja gelada. Algumas estavam lá toda semana, religiosamente. E recebiam olhares deles, de absoluta reprovação. Olhares que diziam: este lugar não é pra vocês!

Elas não procuraram entender, relevaram os olhares, sentaram-se de posse de sua liberdade tão recentemente adquirida.

Mas Jorge estava indignado, incomodado. Não sabia lidar com isso e teve que se manifestar. O ano era 1866 e o local uma cidade do velho-oeste.

Não, não era. Essa história aconteceu na semana passada, em Brusque.

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